1 de dezembro de 2020

Nota do editor: A CNN está empenhada em cobrir a desigualdade de gênero onde quer que ela ocorra no mundo. Esta reportagem é uma colaboração entre a CNN e o The Fuller Project e faz parte de As Equals, uma série contínua. 

Se Gabriela Ochoa soubesse o que aconteceria com ela perto do rio Táchira, que divide a Venezuela e a Colômbia, ela nunca teria feito a travessia.

Mas sua família estava desesperada.

A mãe solteira de 21 anos vinha lutando para sobreviver depois que a economia da Venezuela desabou sob o regime do presidente Nicolás Maduro. Em 2019, ela perdeu o emprego em uma loja de frutas e não conseguia mais alimentar seus três filhos pequenos, todos com menos de cinco anos.

Com os alimentos subsidiados pelo governo cada vez mais escassos e caros, Ochoa nem se deu ao trabalho de buscar ajuda governamental. Em vez disso, depois de um breve período morando com sua mãe, com quem tinha um relacionamento problemático, ela decidiu se mudar para a Colômbia. A jovem mãe ouviu dizer que lá poderia encontrar trabalho – e uma amiga até se ofereceu para hospedá-la.

Quando os primeiros casos de Covid-19 começaram a surgir na sua região, ela viajou em direção à fronteira entre a Colômbia e a Venezuela. Muitos migrantes venezuelanos estavam vivendo em Cúcuta, a grande cidade mais próxima do lado colombiano da fronteira, muitas vezes em condições precárias de favelas e abrigos temporários.

Ochoa e seus filhos chegaram à ponte da fronteira no início de abril, depois de horas de carona e caminhada desde sua cidade natal, a cidade costeira de Puerto Cabello, a mais de 730 km da fronteira. Mas o governo colombiano já havia fechado todos os postos de controle para evitar a disseminação do novo coronavírus em meados de março.

A única opção que restava a Ochoa para atravessar para Cúcuta era atravessar um das quase 80 trochas (rotas informais) lamacentas, dominada pelo crime pelo rio Táchira., na área de Cúcuta. Segundo ela, o local é controlado por gangues de criminosos, guerrilheiros e grupos paramilitares.

No primeiro dia, Gabriela Ochoa disse que implorou às pessoas que seguiam pela trocha que a ajudassem a cruzar, sem sorte. Naquela noite, ela dormiu na rua com seus filhos, seus estômagos roncando de fome. No final do segundo dia, quando o céu escureceu, um jovem finalmente se ofereceu para ajudá-la.

Quando a mulher e as crianças se aproximaram da água, um grupo de homens emergiu dos arbustos, as cabeças cobertas por moletons.

“Eles tinham armas, facas, todos os tipos de coisas”, lembrou a mulher. Os homens agarraram seus filhos e ameaçaram levá-los embora se ela não pagasse para atravessar.

“Achei que eles iam me matar e matar as crianças”, contou. Em lágrimas, Ochoa disse-lhes que não tinha dinheiro e implorou que os deixassem atravessar o rio. Os homens a arrastaram para trás de um arbusto e a estupraram.

“Foi horrível. Graças a Deus que não machucaram as crianças”.

 

CNN Brasil