Dia Internacional dos/as Migrantes: Histórias que recomeçam onde há acolhida

Em ocasião do Dia Internacional do Migrante, 18 de dezembro, Diana Mundarain escreve sobre sua experiência no Encontro da Rede Clamor – convite recebido pelo Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM)

A migração forçada, raramente, começa com uma mala pronta. Começa com uma ruptura. No meu caso, a ruptura teve nome: a crise humanitária que tomou a Venezuela e estrangulou a vida cotidiana. Quando cheguei ao Brasil, carregava comigo o mesmo sentimento que tantas pessoas venezuelanas compartilham, o de partir sem despedidas completas, deixando para trás mais do que coisas: deixando rotinas, memórias e afetos.

Atravessar a fronteira foi, ao mesmo tempo, um gesto de proteção e um salto para o desconhecido. Em Roraima, o Brasil me recebeu com o choque das primeiras vezes: a língua que eu não entendia completamente, a comida cujo sabor eu buscava decifrar, a sensação de estar deslocada no tempo e no espaço. Percebi, ali, que a migração é uma travessia que marca o corpo e a alma.

Ao longo desse caminho, compreendi a migração como experiência humana antes do que como objeto de estudo. Somente depois, já trabalhando como assistente de pesquisa no Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), pude revisitar a minha própria travessia à luz de um fenômeno global. Ali, encontrei não apenas ferramentas acadêmicas, mas reconhecimento. O CSEM tornou efetivo seu núcleo duro: o protagonismo migrante. A instituição acreditou no meu potencial quando eu ainda duvidava de muitas coisas. Confiou na minha capacidade de agência, na minha força de reconstrução, e me deu uma oportunidade que mudou o rumo da minha vida no Brasil.

Sou, portanto, parte das pessoas que recomeçam não apenas por determinação própria, mas porque alguém decidiu estender a mão. Porque alguém preferiu arriscar-se a errar, fazer perguntas, aproximar-se em vez de escolher o silêncio e a distância. A solidariedade, quando se torna prática concreta, transforma destinos.

É por isso que, ao receber o convite do CSEM para falar no Encontro da Rede Clamor sobre “O rosto da migração e do refúgio no Brasil: desafios e esperanças”, decidi que minha fala precisaria ir além das estatísticas. Os números são importantes, mas não revelam as histórias escondidas por trás deles. Não mostram os medos, as perdas, os aprendizados, a resiliência. E, sobretudo, não mostram os rostos.

Uma menina chamada Mariana

Entre os muitos rostos migrantes apresento nesta jornada, um que me marcou profundamente: o da Mariana, uma criança migrante venezuelana que participou de atividades de acolhida. Com a simplicidade e a profundidade próprias das crianças, Mariana ofereceu um testemunho que ilumina o que significa recomeçar.

Ela disse:

“Eu gostaria que entendessem que a gente tem sentimentos. E que perguntassem sobre mim: por que eu deixei meu país? Como ele é?”

Nessas frases, há mais do que palavras: há um pedido de reconhecimento. Mariana quer ser vista, não como “a migrante”, mas como pessoa. Quer que lhe perguntem sobre sua história, suas comidas favoritas, suas brincadeiras, seu país de origem.

Ela contou que, ao chegar ao Brasil, sentiu tristeza porque “não conhecia ninguém”. Entretanto, também disse algo que revela uma força imensa:

“A tristeza passa. Não fica eternamente.”

Para ela, a esperança se constrói no cotidiano: na escola, na aprendizagem do idioma, na dedicação para diminuir as dificuldades. Mariana ainda estranha algumas comidas brasileiras, acha a canjica curiosa, gosta de salgadinhos, mas sente falta das arepas, da banana frita e do sabor da galinhada preparada “como na Venezuela”.

O testemunho dessa menina expõe uma dimensão fundamental da migração: a infância migrante é feita de pequenas rupturas e pequenos recomeços. E é também nela que se desenha o futuro da integração.

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Entre os participantes, Paulo Sérgio Almeida, Oficial de meios de vida e inclusão econômica do ACNUR e professora da UnB, Zakia Ismail Hachem

Acolhimento: entre o gesto e a ética

O que nos permite recomeçar não são apenas políticas públicas ou documentos regularizados, embora sejam essenciais. O que realmente sustenta o renascimento de quem migra são as atitudes de acolhida. São os gestos simples, mas decisivos, de quem pergunta, de quem escuta, de quem compartilha, de quem reconhece a dor e a dignidade do outro.

A migração, como experiência humana, exige muito mais do que tolerância. Exige solidariedade ética, aquela que se compromete, que aprende com o encontro, que renuncia à indiferença. Exige coragem para ultrapassar o medo do desconhecido e disposição para perguntar, mesmo correndo o risco de errar.

Quando instituições como o CSEM acreditam no protagonismo migrante, quando comunidades se abrem ao diálogo e à convivência, quando escolas acolhem crianças como Mariana com paciência e curiosidade, algo se transforma profundamente. A migração deixa de ser vista como ameaça e passa a ser percebida como encontro, partilha e potencial de renovação social.

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Histórias que recomeçam quando há oportunidade

Hoje, olhando para trás, percebo que minha trajetória no Brasil é marcada por muitas dores, mas também por muitas mãos estendidas. Nada teria sido possível sem as pessoas e instituições que foram ponte e não muro. Pessoas que escolheram perguntar em vez de julgar, apoiar em vez de invisibilizar. Oportunidades mudam vidas. E migrantes, quando têm oportunidades, mostram suas capacidades e constroem caminhos de contribuição.

Ao participar do Encontro da Rede Clamor, quero reafirmar uma convicção profunda:
A migração tem rosto, tem voz e esperança.
– E esse rosto, seja o de Mariana, o meu ou o de tantos outros  nos lembra que acolher é um ato transformador tanto para quem recebe quanto para quem chega.

A migração não é uma crise.

Crise é a incapacidade de olhar o outro como humano.

Enquanto houver quem estenda a mão e ofereça oportunidades reais, haverá sempre histórias de reconstrução, coragem e vida nova. E é isso, afinal, que faz a ponte entre a Migração, o Refúgio e a esperança.

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