17 de outubro de 2018

Durante visita ao Peru para acompanhar os fluxos dos refugiados e migrantes venezuelanos, o Alto Comissário do ACNUR afirmou que garantir as vias legais para a permanência nos países de acolhimento deve ser uma prioridade regional.

Nas ruas de Lima, o número de vendedores informais se multiplicou desde 2015. A maioria dos recém-chegados são venezuelanos e eles são fáceis de reconhecer: usam bonés com um V brilhante na frente e jaquetas com as cores de sua bandeira, amarelo, azul e vermelho, estampadas no peito.  Eles também vendem produtos que normalmente não são conhecidos pelos peruanos, como pastéis venezuelanos e arepas, um alimento nacional feito com farinha de milho.


Luis Antonio Pérez vende chocolate quente e pão doce. O jovem de 24 anos veio de Barquisimeto, Venezuela, e fez o trajeto a pé e de carona. Ele e seu melhor amigo demoraram 20 dias para chegar até Lima. Antonio estudava filosofia em uma universidade na Venezuela, mas assim que a situação piorou, ele teve que abandonar os estudos. “Ou eu estudava ou comia. Escolhi comer”, ele disse.

Mais de dois milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2015. Cerca de 450 mil pessoas partiram rumo ao Peru, país com o segundo maior número de recém-chegados venezuelanos, somente atrás da Colômbia, que já abriga mais de um milhão em seu território. O Peru também se tornou o principal país de destino dos venezuelanos que buscam proteção, com mais de 150 mil pedidos de refúgio.

“Eu elogio o Peru por manter suas portas abertas e criar vias legais alternativas para possibilitar aos venezuelanos a permanência no país. Abordar as necessidades humanitárias dos venezuelanos e facilitar os trâmites legais para trabalhar e acessar os serviços sociais nos países de acolhida deve ser uma prioridade regional, e isso exigirá maior apoio da comunidade internacional”, disse o Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, durante uma visita à Lima e à Tumbes, na fronteira Peru-Equador.

Grandi fez uma missão de uma semana na América do Sul para acompanhar em primeira mão as necessidades daqueles que deixaram a Venezuela e para discutir melhores respostas para acolhida de venezuelanos nos países da região.

Luis Antonio está com sua garrafa térmica em uma esquina movimentada em frente à sede da Superintendência Nacional de Migração do Peru. Desde maio de 2018, o escritório está aberto 24 horas por dia para atender ao grande número de pedidos de venezuelanos que buscam legalizar seu status no país. Lima é o único lugar onde eles podem obter os documentos necessários para ganhar uma permissão temporária que lhes permita trabalhar. Portanto, o escritório recebe milhares de visitas por dia.

“Eles ficam ainda mais vulneráveis se não forem registrados formalmente.”

Uma área de recepção foi transformada em uma creche, onde professores voluntários do ensino primário cuidam de crianças enquanto seus pais esperam pela papelada. Os brinquedos, giz de cera e blocos disponíveis no local são doações de oficiais de migração.

O Peru está tentando facilitar o processo de regularização do status migratório dos venezuelanos, em um esforço para dar-lhes acesso rápido a oportunidades de trabalho. Em janeiro de 2017, o governo peruano estabeleceu uma Permissão de Estadia Temporária para os venezuelanos que entraram legalmente no Peru, concedendo-lhes o direito de trabalhar, de estudar e de abrir uma conta bancária por um ano, com a possibilidade de renovação. Mais de 110 mil venezuelanos conseguiram a permissão até agora.

“Precisávamos de um mecanismo que lhes permitisse permanecer no Peru. Eles ficam ainda mais vulneráveis se não foram registrados formalmente”, diz Roxana del Águila, gerente geral da Superintendência Nacional de Migração, sobre a permissão de permanência temporária.

O acesso aos serviços sociais salvou a vida da esposa de Kelvin Briceño. Logo depois que a família se reuniu em Lima, em janeiro de 2018, Marelis ficou muito doente. Uma noite ela desmaiou e Kelvin a levou para o hospital. Marelis passou 22 dias na unidade de terapia intensiva com insuficiência renal.

Os ganhos de Kelvin vendendo chá gelado na rua não eram suficientes para pagar as contas do hospital. Além disso, ele teve que cuidar sozinha de filha de dois anos, Jimena.

“Eu não tinha dinheiro para pagar, não tinha plano de saúde”, diz Kelvin. “Eu estava com medo de que ela adoecesse de novo, porque não conseguiríamos arcar com os preços de uma diálise regular”.

Três semanas depois, Marelis sofreu uma nova crise. Ela passou mais 12 dias internada no hospital. Mas a essa altura, ela tinha conseguido legalizar o status no Peru devido a sua doença. Com o cartão de residência que recebeu, ela obteve acesso ao sistema público de saúde. Poucos venezuelanos – apenas 0,6% dos que estão no Peru – recebem permissões especiais de permanência relacionadas à vulnerabilidade como a de Marelis, que garantem acesso ao sistema nacional de saúde.

Marelis agora consegue fazer diálise regularmente. Kelvin está no processo de obter a Permissão de Estadia Temporária para ele e sua filha Jimena, ainda que atualmente a permissão não conceda acesso ao sistema de saúde. Apenas mulheres grávidas e crianças menores de cinco anos têm acesso à saúde pública.

A família ganha o seu sustento vendendo as empanadas que Kelvin cozinha cedo pela manhã e morando em um local cedido pela igreja.

“Eu estava com medo de que ela adoecesse de novo, porque não conseguiríamos arcar com os preços de uma diálise regular. ”

Os refugiados e migrantes venezuelanos que chegam ao Peru precisam urgentemente de aconselhamento e de apoio. Além de comida e de abrigo, as longas e difíceis jornadas que enfrentam têm impacto na sua saúde psicológica.

Logo após a chegada no abrigo temporário de Scalabrini, Luz Tamara Angulo começou a fornecer apoio psicossocial a outros companheiros venezuelanos. Embora ela esteja no Peru há apenas quatro meses e meio, Luz se tornou a pessoa responsável pelos 80 imigrantes e refugiados venezuelanos que vivem atualmente no abrigo.

Ela ouve pacientemente as suas histórias e responde as questões sobre como achar um trabalho ou legalizar o status de refugiado. Mais de um quarto deles são crianças. Luz dedica atenção especial às suas necessidades psicológicas.

“Muitos estão ansiosos com o desconhecido, porque perderam o seu lar”, diz Luz. “Perderam sua comunidade e sua família. Perder tudo isso em um piscar de olhos é algo que eles não entendem”.

Luz também notou que muitas crianças permaneceram por muito tempo sem alimentação suficiente.  “Isso tem um impacto enorme sobre os aspectos cognitivos da criança”, diz ela.

“O tipo de trabalho que eles estão realizando também tem um impacto psicológico.”

O psicólogo Julio Rondinel notou padrões semelhantes entre os adultos. Ele trabalha com um grupo de venezuelanos em Callao, um subúrbio da classe trabalhadora de Lima, onde observa-se um aumento dramático do número de venezuelanos que vivem lá. Depressão e ansiedade são muito comuns.

Muitos sofrem uma “crise emocional” devido ao fato de que grande parte de sua família ainda se encontra na Venezuela, explica o psicólogo. “Eles representam a esperança de toda família em sobreviver. Estar aqui significa que ‘eu vim para salvar os outros’”, ele disse.

Outro fator que aumenta o estresse emocional é que muitos dos venezuelanos que chegam ao Peru são profissionais qualificados, diz Rondinel. Lá na Venezuela eles eram professores, médicos, engenheiros, enquanto aqui no Peru eles lutam para conseguir um emprego e muitas vezes se tornam vendedores informais nas ruas. “O tipo de trabalho que eles estão realizando também tem um impacto psicológico”, diz ele. “Isso afeta sua autoconfiança, sua aceitação social”.

Migsoe Moreno, 40 anos, é um dos pacientes de Rondinel. Na venezuelana, ela era professora, mas nos três meses vivendo em Lima, não conseguiu achar um emprego estável e, para manter a si e suas duas filhas, teve de virar vendedora ambulante.

“Nós viemos preparados e queremos contribuir com nosso conhecimento para este país”, diz Migsoe com lágrimas nos olhos. “Queremos formalizar a nossa estadia neste país que está abrindo suas portas para nós”.

Fonte: ACNUR