8 de maio de 2020

Aulas de gastronomia, cursos de idiomas, oficinas de danças assim como música, poesia e palestras motivacionais são realizadas em plataformas e projetos digitais no Brasil

A diversidade cultural agregada aos múltiplos conhecimentos de quem foi forçado a deixar o seu país de origem são traços comuns à população refugiada que buscou no Brasil a proteção que precisavam. Após alguns meses de adaptação diante da chegada ao Brasil, em especial para o aprendizado do português, chega-se ao momento de valorização da sua cultura e compartilhamento de seus conhecimentos, quando quem aprendia agora passa a ensinar.

“Ter que deixar o seu país de origem para salvar a sua vida e dos seus filhos nunca é fácil. Por mais sofrido que tenha sido a minha trajetória, olho adiante para poder compartilhar o que sei. A gastronomia congolesa e as palestras motivacionais me permitem superar as dificuldades para ensinar o que tenho de conhecimento e valores humanos”, afirma Sylvie Mutiene, advogada da República Democrática do Congo, que há sete anos vive no Brasil.

Sylvie é uma das participantes da plataforma OpenTaste, projeto idealizado pela refugiada síria Joanna Ibrahim. Trata-se de uma proposta inovadora que realizava almoços temáticos toda sexta-feira, em São Paulo. A cada semana, um chef de diferente nacionalidade era convidado a preparar e servir seus pratos.

Com a chegada do novo Coronavírus e fechamento do comércio, chefs como Sylvie passaram a compartilhar seus conhecimentos pela própria plataforma do OpenTaste, com aulas virtuais de gastronomia mediante agendamento por parte dos interessados.

“Desta forma contamos um pouco dos segredos de cada chef sobre os seus pratos tradicionais, compartilhando essa riqueza cultural com quem gosta de cozinhar. Com este aprendizado, as diferentes culturais também são valorizadas e mostram o quanto todos ganhamos com a chegada de refugiados”, afirma a empreendedora Joanna.

Outra proposta que passou a promover trocas culturais entre refugiados e brasileiros no ambiente virtual é da startup social Migraflix. Dentre as diversas iniciativas apresentadas, a do professor e jornalista venezuelano Raul Escalona chama a atenção já pelo nome da proposta: teatroterapia.

“Minha proposta é de evidenciar a comunicação como uma ferramenta de superação de desafios. Comunicar não é apenas falar, mas se expressar e ser compreendido de diversas maneiras. Para isso, proponho uma viagem no tempo por lendas venezuelanas e técnicas que envolvem a história oral e a percussão corporal”, afirma Raul, com seus 74 anos “bem vividos”.

Para o argentino Jonathan Berezovsky, fundador e diretor do Migraflix, o momento atual requer o compartilhamento de conhecimentos por meio do plano digital, ampliando assim que pessoas em todo o Brasil possam reconhecer os conhecimentos trazidos pelas pessoas refugiadas.

“Esta é uma grande oportunidade para levar as culturas do mundo a todos os cantos do país, engajando milhares de pessoas, gerando mais renda para os empreendedores refugiados e também novos conhecimentos para quem está disposto a se reinventar, assim como as pessoas refugiadas fazem”, afirma Jonathan.

Já outra oportunidade de trocas culturais entre refugiados e brasileiros, centrada no aprendizado de idiomas, diz respeito ao projeto da ONG Abraço Cultural. A proposta da organização é promover o ensino de inglês, espanhol, francês e árabe com professores refugiados e metodologia voltada para as trocas culturais.

“Dentre as oportunidades que tive aqui no Rio de Janeiro, o que de fato fez meus olhos foi o ensino de idiomas. Dou aulas de inglês e árabe e as trocas de saberes e cultura dentro de uma sala de aula são infinitas, ainda que as aulas tenham que ser como agora, virtualmente”, disse a jovem Tulin, de 29 anos.

Ela teve que abandonar a graduação de astronomia na Universidade de Damasco, na Síria, em função da guerra que assola o país há mais de nove anos. Atualmente, Tulin dá aulas particulares e para as classes da Abraço Cultural, com resultados que reforçam os múltiplos aprendizados.

“Estudar no Abraço Cultural é poder aprender sobre cultura Síria mesmo quando se estuda espanhol. Muito mais do que aprender um idioma, é também um espaço para conhecer diferentes culturas, histórias de superação e perceber o quanto somos diferentes e o quanto somos parecidos”, disse a aluna Kátia Hochberg.

Os profissionais refugiados já tiveram que se adaptar à realidade do Brasil no momento de chegada e agora, no contexto de pandemia e do necessário isolamento social, souberam adequar seus conhecimentos para dar continuar aos projetos em que estão envolvidos.

Muitos refugiados empreendedores ajustaram os seus negócios em face desta realidade e mesmo demonstrando de diversas maneira as contribuições que agregam à sociedade brasileira, são em momentos como este, de crise, que seus valores e resiliência se tornam ainda mais evidentes.

Fonte: acnur.org