9 de setembro de 2022

Refugiados afegãos estão entre as 33 milhões de pessoas afetadas por chuvas torrenciais e inundações no Paquistão

“Aquela noite vai ficar pra sempre na memória, pois nossa casa foi inundada em poucos minutos. Não tivemos outra opção a não ser partir imediatamente”, diz Bahadur Khan. Ele é um dos mais de 2.000 refugiados afegãos que vivem na vila de refugiados de Kheshgi, na província de Khyber Pakhtunkhwa, noroeste do Paquistão.

Bahadur e sua família enfrentaram as chuvas torrenciais de monção do Paquistão desde o início, em junho, mas ele não estava preparado para a dramática elevação do rio Cabul no último sábado. As águas romperam um aterro próximo nas primeiras horas da manhã e ele teve apenas 10 minutos para levar seus entes queridos em segurança para um terreno mais alto antes que sua casa fosse varrida.

Foi a terceira vez que o avô de 60 anos precisou deixar tudo para trás em sua vida.

“Nós tivemos que deixar o Afeganistão quando a guerra civil eclodiu no início dos anos 1990. Então tive que me mudar novamente quando minha casa foi completamente destruída depois que as inundações a levaram em 2010”, diz ele.

O Paquistão sofreu inundações regulares no passado, mas este ano foi em uma escala diferente, mais próximo das inundações catastróficas de 2010, que deixaram quase 2.000 mortos. As inundações das monções deste ano já mataram mais de 1.100 pessoas, enquanto cerca de 33 milhões foram afetadas por chuvas torrenciais e inundações repentinas que deixaram 6,4 milhões de pessoas precisando de abrigo, alimentos e outros itens essenciais.

O Paquistão abriga 1,3 milhão de refugiados afegãos, dos quais mais de 421 mil vivem nos distritos mais afetados. Muitos outros vieram ao Paquistão em busca de cuidados médicos, para estudar e trabalhar, ou para encontrar segurança temporariamente ou transitar para outro país.

Originalmente da província de Kunar, no Afeganistão, Bahadur ganha a vida pastoreando gado e é um ancião em sua comunidade. Ele se preocupa com o futuro, principalmente com a educação de seus 11 filhos.

As inundações trouxeram preocupações mais urgentes. Por enquanto, ele está morando perto de sua aldeia parcialmente destruída. “Quando saímos de nossas casas, fomos para os terrenos mais altos e próximos, onde passamos a noite ao ar livre”, diz ele. Na manhã seguinte, funcionários do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, chegaram e providenciaram uma barraca.

“Somos gratos pelas barracas e abrigo, e um mosquiteiro, mas há muitos outros problemas que estamos enfrentando aqui”, diz Bahadur. “Estamos dormindo no chão. Não temos água potável ou instalações médicas, não conseguimos comida diariamente e lutamos para alimentar nossas famílias. Precisamos de comida para viver”, enfatiza. “Precisamos até de comida para o nosso gado.”

Os impactos das mudanças climáticas não discriminam entre cidadãos e pessoas refugiadas. Em todo o Paquistão, há inúmeras histórias de pessoas cujas vidas foram prejudicadas pelas inundações catastróficas das últimas semanas.

A apenas algumas centenas de metros da vila de refugiados de Bahadur, as comunidades paquistanesas locais também foram devastadas. Saleem Khan, um agricultor de 25 anos, foi um dos afetados.

As águas da inundação chegaram na calada da noite e invadiram sua casa às três da manhã. “Ficamos com muito medo. Nunca vimos uma noite tão assustadora. Estávamos imaginando como iríamos atravessar as águas, mas meu pai nos acalmou. ‘Não se assuste’, disse ele. Então começamos a nos mover para o terreno mais alto. Deixamos tudo para trás. Nossos quartos foram totalmente danificados”, lembra Saleem.

A equipe do ACNUR também forneceu abrigo aos cidadãos deslocados. “Mas precisamos de luzes solares e ventiladores”, diz Saleem. “Não temos cama e estou preocupado porque há cobras. E não temos comida, então não conseguimos comer.”

Saleem diz que as plantações de cana-de-açúcar e milho, que são sua única fonte de renda, foram destruídas pelas enchentes, tirando-lhe as cerca de 600.000/700.000 rúpias (US$ 3.000) que ele ganharia em um ano. “Agora que nossa casa está danificada, temos que reconstruir. Seria difícil viver muito tempo nesta tenda”, diz.

Tanto Saleem quanto Bahadur – cidadão e refugiado – agora vivem no mesmo local e compartilham as mesmas dificuldades.

O governo do Paquistão iniciou uma resposta e pediu apoio internacional, pois as inundações continuam a devastar muitas partes do país. De acordo com números do governo, mais de 287.000 casas foram destruídas e mais 662.000 casas danificadas, enquanto 735.000 animais morreram e 2 milhões de acres de plantações foram inundados. Também houve danos significativos à infraestrutura de comunicações.

O ACNUR já forneceu 10.000 barracas e milhares de outros itens de primeira necessidade, como lonas plásticas, produtos sanitários, fogões, cobertores, lâmpadas solares e colchonetes. Milhares de sacos de areia também foram distribuídos para ajudar as famílias a construir defesas ao redor de suas casas. A assistência está sendo prestada às comunidades anfitriãs, bem como às aldeias de refugiados.

Mas muito mais ajuda é necessária. Como parte de uma resposta coordenada ao lado do Comitê Nacional de Gestão de Desastres do Paquistão e outras agências, o ACNUR vem entregando itens de emergência nas áreas ocidentais mais atingidas das províncias de Baluchistão e Khyber Paktunkhwa desde julho, aproveitando seus estoques existentes para refugiados afegãos e comunidades anfitriãs. O apoio também chega à província de Sindh, à medida que a escala de necessidades aumenta.

“O que é urgentemente necessário é um financiamento humanitário rápido”, diz Gayrat Ahmadshoev, chefe do sub-escritório do ACNUR em Peshawar, em Khyber Pakhtunkhwa. “As comunidades paquistanesas e as pessoas refugiadas hospedadas no Paquistão dizem que estas são as piores inundações que já viram na história”.

Um apelo de financiamento da ONU emitido em apoio à resposta liderada pelo governo está buscando US$ 160 milhões para ajudar mais de 5 milhões de pessoas nas áreas mais afetadas. O objetivo é cobrir os custos dos itens essenciais, como alimentação, educação e abrigo, além de reunir famílias e proteger crianças que foram separadas de suas famílias.

Fonte: acnur.org