25 de outubro de 2017

idi braProcesso migratório teve início em 2010 quando terremoto atingiu o Haiti e devastou país.

Processo migratório teve início em 2010 quando terremoto atingiu o Haiti e devastou país.

Há quase uma década Manaus passou a ser refúgio para populações que tentam escapar da fome e de catástrofes naturais. Nas ruas da capital amazonense, haitianos e venezuelanos buscam sobrevivência diante das fragilidades existentes nos seus países de origem. Além disso, eles encontram ainda outras barreiras como o preconceito e cultura diferente das suas.

O processo migratório de haitianos para Manaus teve início em 2010 quando um terremoto atingiu o Haiti e devastou o país. Nesses últimos sete anos, quase 11 mil pessoas migraram para o Brasil e passaram por Manaus. A estimativa é da Pastoral dos Migrantes – grupo da Igreja Católica que oferece assistência aos haitianos em Manaus.

Muitos deles permaneceram na capital e outra parte do grupo seguiu para outros estados. Atualmente, a migração de haitianos para Manaus reduziu, mas a cidade ainda é referência na entrada dos imigrantes.

“A chegada dos haitianos por Manaus foi mais forte nos anos de 2010, 2011 e 2012. Já em 2013 a entrada no Brasil começou a ser maior pelo Acre. Aqui continua, mas com diminuição grande. A grande dificuldade era vir para cá sem o visto e fazer toda aquela trajetória meia clandestina. Depois que começou a ser emitido o visto no Haiti, eles passam sair de lá com a documentação. Isso acaba com esse trânsito atravessando os estados e vem diretamente via aeroporto. Manaus se tornou novamente uma referência dessa chegada dos haitianos e muitos acabam ficando aqui”, disse o padre Valdeci Molinari, pároco da Paróquia São Geraldo e coordenador da Pastoral dos Migrantes.

Na capital, a Pastoral dos Migrantes continua desenvolvendo ações assistenciais para haitianos e mantém dois abrigos atualmente. Um dos abrigos fica localizado no bairro Santo Antônio e atende 40 pessoas. O outro é localizado no bairro Zumbi e já chegou receber 100 pessoas, mas por estar com estrutura precária atende 37 haitianos.

No entanto, o padre avalia que ainda faltam recursos para manter os serviços. “Muitos não têm dinheiro nem para tirar cópia. Falta recurso para ajudar com alimentação, muitos chegam e não têm trabalho. Falta recurso para a gente poder auxiliar nos casos de doença e falta recursos para gente poder acompanhá-los nessa travessia. São várias as necessidades”, comentou Valdeci.

Dificuldades

A permanência na capital do Amazonas não é fácil para muitos deles. A maioria dos imigrantes ainda não conseguiu ingressar no mercado de trabalho manauense. Para sobreviverem, os imigrantes estão atuando no mercado informal de trabalho.

“Até aumentou o número de haitianos trabalhando informalmente. Em vista disso, fizemos um trabalho na Paróquia e criamos uma fábrica de picolés. Hoje, temos 90 haitianos que vivem com renda da venda desses picolés. Tem uma quantidade grande vendendo água e banana frita na rua. Então, há um grupo muito grande dentro do trabalho informal com venda de frutas e verduras em feiras. Creio que hoje são 350 haitianos que vivem em função do trabalho informal”, revelou padre Valdeci Molinari.

Novos imigrantes

Desde o fim de 2016 Manaus também começou receber imigrantes venezuelanos. A crise econômica e a falta de alimentos na Venezuela fizeram com que venezuelanos deixassem o país.
Em busca de sobrevivência, eles começaram a migrar para capital amazonense. Indígenas da etnia Warao adultos, idosos e crianças chegaram a se abrigaram na Rodoviária de Manaus e acampar debaixo de um viaduto na Zona Centro-Sul.

O intenso processo migratório fez Manaus decretar situação de emergência.
Depois de uma mobilização da Igreja Católica e do Ministério Público Federal no Amazonas (MPF/AM), a Prefeitura de Manaus e governo do estado criaram abrigos para tirar das ruas e de condições insalubres os imigrantes.

“Na Venezuela não temos comida, não temos nada de comida e por isso viemos para cá. Estamos aqui e estamos buscando comida para nossa gente que ficou na Venezuela com fome”, disse o cacique Fernando Morales, de 57 anos.

Segundo a Secretaria de Estado da Assistência Social (Seas), o ápice da chegada dos imigrantes indígenas venezuelanos da etnia Warao aconteceu entre novembro de 2016 a agosto de 2017.
“Entre os motivos que trouxeram esses grupos a Manaus, podemos destacar: a ligação terrestre do Amazonas ao Estado de Roraima, via BR-174, e a receptividade que aqui encontraram. Porém, esse fluxo vem apresentando redução, o que não significa dizer que não haverá novos fluxos migratórios de venezuelanos”, explicou a secretária da Seas, Auxiliadora Abrantes.

De setembro até outubro, os números de acolhidos pelo Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias da Secretaria de Estado da Assistência Social (SAIAF/SEAS) baixaram. Dos 290 indígenas inicialmente acolhidos, hoje são 128.

A secretária explicou que a Seas considera esse deslocamento um movimento instável, uma vez que os indivíduos que retornaram ao seu país de origem podem voltar a Manaus, já que que o Brasil ainda não possui uma política migratória estabelecida.
Na avaliação dela, três fatores podem estar estão fazendo com que os indígenas venezuelanos deixem a cidade de Manaus.

“Primeiro é que o acúmulo de bens e recursos financeiros para a subsistência possibilitou o retorno à Venezuela; o segundo fator é o surgimento de uma nova rota, bastante procurada por esses grupos: as cidades de Belém e Santarém no estado do Pará e, por último, a falta de adaptação aos costumes e leis do Brasil”, disse.

Preconceito

As barreiras com idioma e culturais fizeram com que os indígenas passassem a pedir esmolas para sobreviver em Manaus. A mendicância dos indígenas venezuelanos foi alvo de críticas por parte da população manauara, situação foi oposta a encontrada pelos haitianos.

“Os haitianos tiveram mais facilidade de aceitação, tanto pela caraterística e pela época que chegaram. A chegada deles foi no período que o país buscava mão-de-obra. Eram empresas do Sul do Brasil que vinham correndo atrás para contratar os haitianos. A migração é sempre assim, quando há uma necessidade de mão-de-obra são bem recebidos, mas quando começa a faltar começa a questão da discriminação. Esse é o contexto da realidade migratória. Os venezuelanos sofrem outra questão que é característica do povo indígena que tem prática da mendicância que é milenar. É uma tradição deles e a maioria da população não compreende isso.

Acha que todos venezuelanos são vagabundos e pedintes”, avaliou padre Valdeci que atua com imigrantes.
Para a secretária da Seas, os principais desafios da assistência social com os indígenas venezuelanos que permanecem em Manaus são os trabalhos para que se promova a autonomia desse grupo e recursos.

“Ou seja, a capacidade de se sustentarem e serem incluídos legalmente na sociedade para que se tornem cidadãos de direito e a garantia de recursos para a continuidade do Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias, onde são realizados cadastramento de famílias; atendimento psicossocial; solicitação dos protocolos junto à Polícia Federal, atendimentos médicos e atividades culturais”, afirmou Auxiliadora Abrantes.

Fonte: g1.globo.com