7 de setembro de 2019

Após sua chegada à Coreia do Sul, há nove anos, a sra. Lim acreditava ter virado a página da miséria na Coreia do Norte, mas a mãe solteira nunca pensou que ficaria tão decepcionada.

Lim faz parte dos 33.000 norte-coreanos – a maioria mulheres – que conseguiram se refugiar no sul por 70 anos para escapar da repressão e da pobreza no Norte.

Com uma sociedade democrática e capitalista, a vida no sul é muito diferente.

A transição é difícil, especialmente para centenas de mães solteiras com dificuldades em conciliar a vida profissional e familiar.

“A vida na Coreia do Sul é o oposto do que eu imaginava”, diz Lim, que pede para ser citada apenas por seu prenome.

Recentemente, os corpos da norte-coreana Han Sung-ok e de seu filho epilético de seis anos foram encontrados em um apartamento em Seul. Aparentemente, eles morreram de fome dois meses antes.

– Trabalhos precários –

O caso abalou a Coreia do Sul.

“Han fugiu da Coreia do Norte, onde as pessoas morrem de fome, tudo isso para acabar morrendo de fome na Coreia do Sul”, lamenta Heo Kwang-il, que está lutando por uma melhor recepção desses refugiados.

Como a maioria dos refugiados norte-coreanos, Lim fugiu através da fronteira chinesa.

Ela partiu com 24 anos para a China para ganhar dinheiro e enviá-lo para sua família, mas caiu em uma rede de traficantes de seres humanos que a venderam para um chinês violento com quem teve uma filha.

Após quatro anos de “prisão”, conseguiu fugir com sua filha para Seul.

Ela só conseguiu empregos precários e teve que confiar a filha a uma instituição por não ter ninguém com quem deixá-la.

– Círculo vicioso –

Ela pensou em se matar. “Às vezes eu queria voltar para a Coreia do Norte”, declara, em seu pequeno apartamento sul-coreano.

Agora ela trabalha como garçonete e consegue enviar dinheiro para sua família através de intermediários. Não se arrepende mais.

Para quem chega do norte, morar no sul é um desafio econômico e cultural, principalmente para as mães solteiras.

“Quando têm um filho, elas acabam aceitando empregos instáveis em tempo parcial”, explica Kim Sung-kyung, que leciona em uma universidade. “É um círculo vicioso.”

O governo sul-coreano dá a cada novo refugiado norte-coreano o equivalente a 6.000 euros (6.500 dólares) para ajudá-los a se estabelecer.

– Individualismo –

Os refugiados podem buscar mais subsídios, mas a complexidade administrativa desencoraja alguns.

Alguns meios de comunicação afirmam que a sra. Han tentou pedir ajuda, mas um funcionário quis que ela provasse seu status com documentos que não possuía.

“As pessoas chegam ao sul democrático pensando n ‘o sonho sul-coreano’, mas muitas acabam com depressão”, explica Lee Na-kyung, que está lutando para oferecer mais ajuda a pais solteiros e deficientes oriundos do norte.

A sra. Lee chegou em 2006 com o marido e o filho deficientes. Como eles tiveram que gastar o dinheiro em tratamentos médicos, logo ficaram desabrigados. Ela diz que seguiu adiante devido a sua força de vontade.

Na Coreia do Norte, o Estado é onipresente e o contraste com o individualismo da sociedade sul-coreana é enorme.

Muitas mães solteiras que chegam ao Sul “não têm com quem conversar e se sentem isoladas”, lamenta a sra. Lee.

“Muitos dizem que eram pobres no norte, mas nunca se sentiram sozinhos”, conclui.

Estado de Minas