Dossiê: Migrants, Refugees, and Displaced Persons in the Middle East and North Africa (migrantes, refugiados e deslocados internos em riente Médio e Norte da África)

 

A Revista Interdisciplinar de Mobilidade Humana, REMHU, acaba de lançar o seu mais novo número. A edição 63 conta com um dossiê organizado por Luciano Zaccara e Maria do Carmo dos Santos Gonçalves sobre migrantes, refugiados e pessoas deslocadas no Oriente Médio e na região norte do continente africano.

A região conhecida como MENA (Middle East and North Africa) é o foco dos textos publicados na primeira seção da revista. O conjunto de artigos, cuidadosamente selecionado pelos organizadores, apresenta a perspectiva de pesquisadores/as de diferentes áreas disciplinares a respeito das características e dos desafios dos deslocamentos nesse contexto geográfico.

O principal objetivo do dossiê é dar visibilidade a uma realidade migratória e social comumente silenciada, estereotipada e até estigmatizada na mídia ocidental. Como afirmam o organizador e a organizadora do dossiê, “apesar da grande diversidade presente nos países do MENA, ainda prevalece uma visão homogeneizada da região, desconsiderando diferenças culturais, políticas, históricas, entre outras, e que tornam o fenômeno das migrações no MENA um fato ainda não analisado. Essa invisibilidade só parece ser quebrada quando o Oriente ‘transborda’ (overflow) seus limites geográficos e chega ao Ocidente através de grandes ondas de migrantes e refugiados” (Zaccara, Gonçalves, 2021; tradução nossa).

De forma específica dois dos artigos do dossiê focam os desafios da presença de pessoas refugiadas sírias e afegã no Líbano (Carpi, 2021) e no Irã (Moghadam, Jadali, 2021), desmistificando a crença de que os deslocamentos de migrantes e refugiados se dirigem exclusivamente para os países economicamente mais ricos.

Merece um destaque o texto de Estella Carpi, que atenta para os desafios da “acolhida humanitária” no Líbano, sobretudo na complexa interação entre os diferentes sujeitos envolvidos: as pessoas migrantes e refugiadas oriundas de vários países, as organizações internacionais, as agências do Estado, as ONGs e a população local. Esta geralmente tende a ser solidária com pessoas refugiadas “em nome de laços de sangue, antigas amizades e favores pessoais” (Carpi, 2021) ou em nome da “fraternidade entre muçulmanos” (Moghadam, Jadali, 2021; tradução nossa).

Uma temática análoga é aprofundada na Seção Artigos em dois textos sobre a acolhida de pessoas migrantes venezuelanas no Brasil (Vasconcelos, Machado, 2021; Silva, Baeninger, 2021). Neste caso também há uma migração fronteiriça, numericamente expressiva, entre países em desenvolvimento e induzida pela grave crise na Venezuela. Os dois artigos, ainda que com focos diferentes, se perguntam até que ponto as operações de acolhida visam a defesa e a promoção dos direitos humanos de migrantes e refugiados venezuelanos ou, em vez disso, uma gestão securitária de controle e fiscalização das pessoas em mobilidade, na ótica da externalização das fronteiras: neste caso, o Brasil estaria atuando como um “país-tampão” no controle e estancamento da migração venezuelana. Por meio das narrativas humanitárias, ou apesar delas, o objetivo não seria promover a autonomia e a agência dos sujeitos migrantes, e sim sua tutela e docilização.

Os casos citados do Oriente Médio e do Brasil apontam desafios que merecem ser debatidos e aprofundados de forma multilateral, principalmente em relação aos processos de primeira e segunda acolhida de migrantes e refugiados, ao envolvimento de exércitos e organizações internacionais nas fronteiras, à governança migratória humanitária, à externalização das fronteiras, à invisibilização de deslocamentos, à agência (agency) de migrantes e refugiados, sobretudo das suas formas mais ou menos formais de organização.

Estas e outras temáticas estão presentes também nos demais artigos do volume 63 da REMHU que convidamos todos/as a ler.

A seguir o índice da REMHU 63, com todos os artigos que a compõem.

 

EDITORIAL

Pessoas migrantes, refugiadas e deslocadas no Oriente Médio e Norte da África: visibilidade e direitos – Roberto Marinucci

DOSSIÊ: “MIGRANTS, REFUGEES, AND DISPLACED IN THE MIDDLE EAST AND NORTH AFRICA”
Migrants; Refugees; and Displaced in the Middle East and North Africa: An approach from the Global South – Luciano Zaccara, Maria do Carmo dos Santos Gonçalves

Immigration and revolution in Iran: asylum politics and state consolidation – Amin Moghadam, Safinaz Jadali

Deslocamentos forçados no Oriente Médio e o ciclo de vida refúgio na Turquia e Líbano – da cobertura factual ao jornalismo humanitário – Cilene Victor, Lilian Sanches, Rodrigo Borges Delfim

Nowhere to go? The case of displaced people in Maghreb states during the COVID-19 pandemic – Johnatan Santos

Sobre as etnocracias das ajudas humanitárias no Líbano – Estella Carpi

ARTIGOS
Uma missão eminentemente humanitária? Operação acolhida e a gestão militarizada nos abrigos para migrantes venezuelanos/as em Boa Vista – RR – Iana dos Santos Vasconcelos, Igor José de Reno Machado

O êxodo venezuelano como fenômeno da migração Sul-Sul – João Carlos Jarochinski-Silva, Rosana Baeninger

Recomeço: o sofrimento psíquico na imigração involuntária e a política de inclusão nas universidades brasileiras – Alisson Vinícius Silva Ferreira, Mariá Boeira Lodetti, Lucienne Martins Borges

Entre Ulises y Penélope: integrar la perspectiva de género en los estudios sobre la salud mental de las mujeres migrantes – Itzel Eguiluz

Direitos de cidadania dos imigrantes em Portugal – Geisa Oliveira Daré

Xeno-racismo ou xenofobia racializada? Problematizando a hospitalidade seletiva aos estrangeiros no Brasil  – Deivison Mendes Faustino, Leila Maria de Oliveira

El patrocinio de refugiados: una revisión sistemática descriptiva – Ana Irene Rovetta Cortés

RELATOS E REFLEXÕES
A dor se transforma em solidariedade. A Pastoral do migrante em Roraima – Terezinha Santin, mscs

RESENHAS
Migração e intolerância, por Umberto Eco – Renata Ferreira da Silva, Juliane Sant’Ana Bento