{"id":8507,"date":"2017-08-21T13:05:57","date_gmt":"2017-08-21T16:05:57","guid":{"rendered":"https:\/\/csem.org.br\/2017\/08\/21\/o-drama-dos-refugiados-continua-na-europa\/"},"modified":"2024-03-09T13:17:00","modified_gmt":"2024-03-09T16:17:00","slug":"o-drama-dos-refugiados-continua-na-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/o-drama-dos-refugiados-continua-na-europa\/","title":{"rendered":"O drama dos refugiados continua na Europa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" style=\"margin-right: 10px; margin-bottom: 10px; float: left;\" src=\"http:\/\/www.csem.org.br\/images\/idioma\/idi_bra.gif\" alt=\"idi bra\" width=\"24\" height=\"17\" title=\"\">Na Europa, muitos enfrentam a trucul\u00eancia das autoridades e a xenofobia de parte da popula\u00e7\u00e3o e da classe pol\u00edtica<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>&nbsp;20.08.2017<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses, recebi com alegria um telefonema da filha de um refugiado s\u00edrio, o primeiro cliente do projeto que coordeno h\u00e1 mais de um ano em Sal\u00f4nica, segunda maior cidade da Gr\u00e9cia. O projeto prepara gratuitamente solicitantes de asilo para as suas entrevistas com as autoridades gregas.<\/p>\n<p>Ela me disse que sua fam\u00edlia acabara de receber o status de refugiado em um pa\u00eds do norte europeu, para onde foram realocados no esquema de cotas criado pela Uni\u00e3o Europeia. O sistema visa aliviar a press\u00e3o migrat\u00f3ria na Gr\u00e9cia e na It\u00e1lia &#8211; os principais pontos de entrada de refugiados no continente.<\/p>\n<p>Foi um grande al\u00edvio.<\/p>\n<p>Aquela fam\u00edlia precisou fugir da S\u00edria porque tornou-se alvo do regime. O pai da jovem aceitou guardar em seu apartamento alguns pertences de um vizinho que ficaria um tempo fora da regi\u00e3o. Poucos dias depois, soldados das tropas de Bashar Al-Assad invadiram sua casa e descobriram entre os objetos um gravador e microfones.<\/p>\n<p>O vizinho era, provavelmente, um espi\u00e3o que suspeitava estar prestes a ser descoberto. Entretanto, n\u00e3o hesitou em colocar em risco a vida de uma fam\u00edlia composta apenas por civis, que precisaram fugir para n\u00e3o ser mortos pelo governo.<\/p>\n<p><strong>A fuga<\/strong><\/p>\n<p>Eles chegaram \u00e0 Europa em uma perigosa jornada de barco pelo Mar Mediterr\u00e2neo. Nos momentos mais tensos do trajeto, acharam que morreriam. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional de Migra\u00e7\u00e3o, 5.143 pessoas perderam a vida ou desapareceram tentando chegar ao continente em 2016.<\/p>\n<p>Desde 2015, mais de um milh\u00e3o seguiram a mesma rota para fugir de conflitos e persegui\u00e7\u00e3o. Para parte deles, morrer em alto mar era uma op\u00e7\u00e3o melhor do que ficar em seus pa\u00edses de origem.<\/p>\n<p>Entre os benefici\u00e1rios do projeto que coordeno, est\u00e3o s\u00edrios v\u00edtimas da guerra civil e diversos iraquianos que fogem da persegui\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias xiitas que dominam grande parcela daquele pa\u00eds. H\u00e1 tamb\u00e9m muitos que escaparam de \u00e1reas controladas pelo Estado Isl\u00e2mico, onde execu\u00e7\u00f5es brutais e mutila\u00e7\u00f5es como forma de puni\u00e7\u00e3o s\u00e3o constantes. Ou\u00e7o frequentemente testemunhos chocantes sobre as raz\u00f5es que levaram refugiados a deixarem seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>Mesmo com motivos v\u00e1lidos para buscarem prote\u00e7\u00e3o internacional, muitos desses refugiados n\u00e3o escapam da xenofobia de grupos da extrema-direita que os definem com &#8220;imigrantes econ\u00f4micos&#8221;, uma &#8220;invas\u00e3o de mu\u00e7ulmanos&#8221; ou &#8220;uma amea\u00e7a \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o europeia&#8221;, como disse Viktor Orb\u00e1n, primeiro-ministro da Hungria. Naquele pa\u00eds, refugiados est\u00e3o expostos a condi\u00e7\u00f5es desumanas, incluindo a possibilidade de serem presos em cont\u00eaineres na fronteira at\u00e9 que seus casos sejam analisados.<\/p>\n<p>Orb\u00e1n n\u00e3o est\u00e1 sozinho em sua cruzada nacionalista. Ainda que a Europa tenha recebido apenas uma fra\u00e7\u00e3o do n\u00famero de refugiados que o L\u00edbano (onde um a cada seis habitantes era refugiado em 2016) e a Turquia (com 2,9 milh\u00f5es ) receberam, a ret\u00f3rica da amea\u00e7a externa se propaga.<\/p>\n<p>Robert Fico, premier da Eslov\u00e1quia, recusou-se a receber refugiados mu\u00e7ulmanos em seu pa\u00eds porque eles iriam &#8220;mudar as caracter\u00edsticas e a cultura&#8221; local. Pol\u00f4nia e Rep\u00fablica Tcheca tamb\u00e9m n\u00e3o querem aceitar as cotas impostas pela Comiss\u00e3o Europeia. A UE abriu uma a\u00e7\u00e3o legal contra esses quatro pa\u00edses, todos liderados por governos conservadores.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia, h\u00e1 m\u00e1fias aliciando menores refugiados para prostitui\u00e7\u00e3o, milhares de pessoas ainda vivem em campos inadequados e diversas pessoas que receberam o status de refugiado do governo n\u00e3o possuem suporte oficial das autoridades &#8211; alguns sequer t\u00eam onde morar.<\/p>\n<p>Em ilhas como Chios e Lesbos, hotspotsforam estabelecidos para analisar os pedidos de asilo de quem chegar pelo Mar Egeu e para impedir que essas pessoas possam chegar \u00e0 Gr\u00e9cia continental. A espera pela conclus\u00e3o do processo leva meses, per\u00edodo no qual os solicitantes de asilo vivem em abrigos com condi\u00e7\u00f5es inadequadas.<\/p>\n<p><strong>Impactos<\/strong><\/p>\n<p>O impacto psicol\u00f3gico \u00e9 grande: os casos de tentativas de suic\u00eddio e de automutila\u00e7\u00e3o s\u00e3o comuns. Protestos s\u00e3o reprimidos com intensa viol\u00eancia e abuso policial. Em diversos casos, o processo de asilo e as entrevistas t\u00eam seguido procedimentos ilegais e abusivos. Contudo, pouco se discute sobre isso na m\u00eddia.<\/p>\n<p>Construiu-se um clima prop\u00edcio \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o da ret\u00f3rica de que refugiados s\u00e3o &#8220;farsantes&#8221;, ainda que muitos dos que espalham esse &#8220;argumento&#8221; nunca tenham sequer conversado com um solicitante de asilo. Esse discurso tem consequ\u00eancias reais nas vidas das pessoas, uma vez que ele se infiltra nas institui\u00e7\u00f5es respons\u00e1veis por analisar pedidos de asilo. Por isso, \u00e9 preciso preparar muito bem os refugiados para suas entrevistas.<\/p>\n<p>No direito internacional para refugiados, que lida com casos de indiv\u00edduos muitas vezes for\u00e7ados a fugir apenas com a roupa do corpo e sem qualquer documento de identifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 comum dizer que a evid\u00eancia mais importante \u00e9 a hist\u00f3ria do solicitante de asilo. Logo, ela precisa ser apresentada da forma mais clara, objetiva e organizada poss\u00edvel para convencer as autoridades. Estas o colocar\u00e3o sob d\u00favida frequentemente.<\/p>\n<p><strong>Os refugiados de Idomeni<\/strong><\/p>\n<p>Combater essa ret\u00f3rica nociva a pessoas buscando prote\u00e7\u00e3o internacional \u00e9 importante. Esse \u00e9 um dos motivos pelos quais escrevi o livro Refugiados de Idomeni &#8211; o Retrato de um Mundo em Conflito, que narra como a crise dos refugiados afetou um pequeno vilarejo no norte da Gr\u00e9cia, na fronteira com a Antiga Rep\u00fablica Iugoslava da Maced\u00f4nia.<\/p>\n<p>Idomeni ganhou fama internacional ao se transformar em um abrigo esqu\u00e1lido para cerca de 14 mil indiv\u00edduos, que ficaram presos por meses ap\u00f3s o fechamento das fronteiras do norte europeu para refugiados vindos da Gr\u00e9cia a partir de mar\u00e7o de 2016.<\/p>\n<p>Milhares de pessoas viviam em barracas sob chuva, lama, ventos e temperaturas negativas na esperan\u00e7a de que as fronteiras voltassem a se abrir. Aquele acampamento informal virou o epicentro de uma emerg\u00eancia global. O local foi comparado a campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas pelo pr\u00f3prio ministro do Interior grego, Panagiotis Kouroublis.<\/p>\n<p>Entre outubro de 2015 e maio de 2016, fiquei entre Sal\u00f4nica e Idomeni, um local definido por um refugiado como &#8220;o inferno&#8221;. Conduzi uma pesquisa de campo sobre a mobiliza\u00e7\u00e3o de civis para ajudar refugiados na regi\u00e3o. Parte daquela pesquisa deu origem ao livro, que narra um peda\u00e7o da crise migrat\u00f3ria que atingiu a Europa pelos olhos dos refugiados, de atores humanit\u00e1rios e de moradores de \u00e1reas afetadas.<\/p>\n<p>Fonte:<a href=\"http:\/\/www.huffpostbrasil.com\/gabriel-bonis\/o-drama-dos-refugiados-continua-na-europa_a_23080878\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">huffpostbrasil.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Europa, muitos enfrentam a trucul\u00eancia das autoridades e a xenofobia de parte da popula\u00e7\u00e3o e da classe pol\u00edtica<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-8507","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorised"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8507","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8507"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8507\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}