{"id":24098,"date":"2024-10-18T11:11:42","date_gmt":"2024-10-18T14:11:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.csem.org.br\/?post_type=csem_em_foco&#038;p=24098"},"modified":"2024-10-18T11:32:27","modified_gmt":"2024-10-18T14:32:27","slug":"comer-para-existir-e-para-ser","status":"publish","type":"csem_em_foco","link":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/csem_em_foco\/comer-para-existir-e-para-ser\/","title":{"rendered":"Comer para existir e para Ser"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria humana est\u00e1 circunscrita aos processos migrat\u00f3rios, que acontecem de forma volunt\u00e1ria ou n\u00e3o, e as pessoas envolvidas nessas mudan\u00e7as precisam reorganizar as pr\u00e1ticas cotidianas para se adaptarem a novos espa\u00e7os geogr\u00e1ficos e contextos culturais, criando uma sinergia de a\u00e7\u00f5es que entrela\u00e7am o familiar e o desconhecido . Nesse contexto de descobertas e aproxima\u00e7\u00f5es com novas viv\u00eancias, as pessoas migrantes buscam conforto\u00a0 nas lembran\u00e7as da vida anterior. Reencontrar-se com a familiaridade da cultura \u00e9 uma constante que ressignifica a vida e atua como refer\u00eancia para reconstruir o futuro. A comida possui esse car\u00e1ter acolhedor, trazendo conforto ao cozinhar e saborear pratos t\u00edpicos. <\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, um migrante tenta recriar a sua vida longe de casa, e a comida, junto com os alimentos utilizados, ocupa um lugar central no cotidiano, atuando como um elemento importante. \u00c9 assim que comer, considerado um ato biol\u00f3gico, se entrela\u00e7a com a cultura e a identidade. A cultura alimentar s\u00e3o aquelas primeiras coisas que transitam junto com o fluxo migrat\u00f3rio das pessoas levando com elas t\u00e9cnicas de preparos, temperos, pr\u00e1ticas para ficar na mesa e sobre como pegar os alimentos, mesmo assim, n\u00famero de comidas no dia. A comida \u00e9 crucial para manter a identidade cultural (Alto\u00e9 e De Azevedo, 2018, s.p).<\/p>\n\n\n\n<p>Importante compreender que nem todo alimento \u00e9 comida, s\u00e3o os costumes e tradi\u00e7\u00f5es culturais que incidem nessas escolhas alimentares. O sistema alimentar \u00e9 definido atrav\u00e9s de um conjunto de processos de produ\u00e7\u00e3o e consumo de aqueles produtos que s\u00e3o considerados como alimentos. O alimento s\u00f3 se transforma em comida quando \u00e9 aceito social e culturalmente por um determinado grupo, e esse processo vai muito al\u00e9m de seu valor nutricional. (DORIA, PELLERANO, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Um alimento que se transforma em comida \u00e9 o resultado de um processo cultural que aporta identidade a uma comunidade, nesse sentido, comer \u00e9 expressar pertencimento a um grupo determinado, que exterioriza o significado do conhecimento, lembran\u00e7as, emo\u00e7\u00f5es, sensa\u00e7\u00f5es compartilhadas ao longo da sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>No marco das migra\u00e7\u00f5es, deslocamentos humanos e do ref\u00fagio, acolher aqueles que deixaram para tr\u00e1s suas vidas por conta de fatos t\u00e3o distantes das suas expectativas precisa ter um cuidado fundado nos termos de seguran\u00e7a alimentar, cultura e migra\u00e7\u00f5es. Para Alto\u00e9 e De Azevedo (2018) a perman\u00eancia dessas pr\u00e1ticas \u00e9 fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o da identidade do migrante e refugiado porque elas s\u00e3o repletas de fatores simb\u00f3licos. Comida \u00e9 mem\u00f3ria, \u00e9 afeto, \u00e9 resist\u00eancia. N\u00e3o se come apenas porque se tem fome no sentido fisiol\u00f3gico, mas porque \u00e9 preciso alimentar as emo\u00e7\u00f5es e mem\u00f3rias, recordar momentos e situa\u00e7\u00f5es importantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos espa\u00e7os de acolhimento institucional \u00e9 importante prever que os acolhidos dependem das estruturas institucionais devido \u00e0 sua alta vulnerabilidade , \u00e9 preciso lembrar da import\u00e2ncia da seguran\u00e7a alimentar como promotora da sa\u00fade e que a diferen\u00e7a cultural sustenta a identidade dos migrantes e refugiados. A minha experi\u00eancia como migrante\/refugiada no Brasil inspira esta reflex\u00e3o. Procedente da Venezuela em um contexto de migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, depois de recorrer anos de vulnerabilidade e desprote\u00e7\u00e3o de meus direitos humanos b\u00e1sicos em meu pa\u00eds, decidi deixar minha casa \u2013 uma decis\u00e3o dif\u00edcil, que sempre deixa marcas. Somando-se ao processo migrat\u00f3rio, o impacto dessa decis\u00e3o extrema me levou a um estado que chamo de desesperan\u00e7a, marcado por uma profunda fadiga emocional e psicol\u00f3gica, que esvazia a pessoa, sua humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Reencontrar-se consigo mesmo implica receber apoio em diferentes aspectos para reconstruir a vida fora de nossas fronteiras culturais e emocionais, bem como territoriais. Os espa\u00e7os de acolhimento institucional dedicados a esse prop\u00f3sito t\u00eam a nobre tarefa de ajudar nessa reconstru\u00e7\u00e3o pessoal, e, na minha opini\u00e3o, colocando em um lugar importante, quase central, a dualidade humana, bio-cultural. Isso implica n\u00e3o apenas alimentar o corpo, mas tamb\u00e9m o Ser. A comida \u00e9 alimento para existir e para <em>ser<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>de Souza Lima, R., Ferreira Neto, J. A., &amp; Pereira Farias, R. de C. (2015). ALIMENTA\u00c7\u00c3O, COMIDA E CULTURA: O EXERC\u00cdCIO DA COMENSALIDADE. <em>DEMETRA: Alimenta\u00e7\u00e3o, Nutri\u00e7\u00e3o &amp; Sa\u00fade<\/em>, <em>10<\/em>(3), 507\u2013522. https:\/\/doi.org\/10.12957\/demetra.2015.16072<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00f3ria, C., Pellerano,J. (2019). COMIDA VS. ALIMENTO: CULTURA E NUTRI\u00c7\u00c3O A PARTIR DO PROGRAMA PAULISTANO \u201cALIMENTO PARA TODOS\u201d. Revista do Centro de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o N\u00ba 8, julho 2019. 120-130<\/p>\n\n\n\n<p>Alto\u00e9, I. e De Azevedo, E.. (2018). Comida migrat\u00f3ria: a cultura alimentar e as identidades de refugiados.Revista del CESLA, n\u00fam. 2,. 247-264.<\/p>\n","protected":false},"featured_media":24099,"parent":0,"template":"","categories":[84,59],"class_list":["post-24098","csem_em_foco","type-csem_em_foco","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-84","category-destaque-csem-em-foco"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/csem_em_foco\/24098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/csem_em_foco"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/csem_em_foco"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24099"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/pt_br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}