22 de setembro de 2017

 No mundo todo só 1% dos refugiados chega à faculdade; no Brasil nove instituições oferecem programas específicos para facilitar o acesso desses alunos.

No mundo todo só 1% dos refugiados chega à faculdade; no Brasil nove instituições oferecem programas específicos para facilitar o acesso desses alunos.

Por Gabriela Bazzo e Vanessa Fajardo, G1

erca de 70 refugiados ingressaram em 17 instituições de ensino superior brasileiras entre novembro de 2016 até setembro de 2017, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) obtidos com exclusividade pelo G1. Neste período, 22 diplomas de refugiados foram revalidados por estas mesmas instituições.

No mundo todo, um refugiado tem 36 vezes menos chance de ingressar no ensino superior do que alguém que não está em situação de refúgio. E somente 1% dos refugiados chega à faculdade; no Brasil nove instituições oferecem programas específicos para facilitar o acesso desses alunos.

Segundo dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), a população de refugiados no Brasil é formada por 9.552 pessoas de 82 nacionalidades. Não se sabe se o Brasil atinge o índice global de 1% de refugiados no ensino superior porque eles podem estar matriculados em outras instituições que não estão entre as 17 “parceiras” da Acnur.

É o caso da síria Sarah Hazeemeh, de 21 anos, que cursa o quarto semestre de farmácia em uma universidade particular em São Paulo. Sarah teve de aprender português suficiente para conseguir fazer uma redação e ser aprovada no vestibular agendado. Só teve sucesso na segunda tentativa. Também precisou arrumar um emprego para pagar a faculdade. 

A unidade de informação pública do Acnur afirma que as 17 universidades brasileiras que integram a chamada “Cátedra Sérgio Vieira de Mello” estão engajadas em diversos projetos com pesquisas e ações que dialogam com suas demandas e contribuem para sua integração. Todos os meses elas atendem 1.000 refugiados assistência jurídica, na área da saúde, além de ensino de português.

No entanto, deste grupo, apenas nove, possuem programas específicos para facilitar o acesso deste público à graduação. Entre elas, a pioneira Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que desde 2009 já recebeu 21 alunos em situação de refúgio para os cursos de graduação – cinco já se formaram, e 13 seguem estudando.

Maiara Folly, pesquisadora do Instituto Iguarapé, reforça que a universidade representa uma chance de reconstrução, de recomeço a longo prazo. “O que acaba acontecendo é que, quando isso não é possível, o refugiado acaba recorrendo a trabalhos de caráter informal, que oferecem uma remuneração pior e o deixam em uma posição de vulnerabilidade. Com o acesso ao ensino superior, ele sabe que vai ficar melhor do que no local onde estava antes”.

Para facilitar o acesso dos refugiados ao ensino superior, a pesquisadora defende a criação de programas e políticas públicas no âmbito federal.
A pedagoga Thaís Juliana Palomino trabalha na UFSCar e acompanha os estudantes refugiados.

“Eles sempre se destacam seja pela força de superar uma história de vida difícil e também pela dedicação e comprometimento com o curso principalmente pelo desejo de contribuir para a melhor de vida de seus familiares. Eles e elas superam e nos dão uma aula de como continuar buscando seus sonhos.”

Revalidação de diplomas

Além do desafio de ingressar no ensino superior, muitos refugiados que chegam ao Brasil precisam também revalidar seus diplomas, para conseguir um bom emprego ou para dar prosseguimento aos estudos.

Parceira do Acnur, a ONG Compassiva trabalha para revalidar os diplomas de refugiados.

No total, a Compassiva já recebeu 30 solicitações de revalidação de diploma por parte de refugiados – 25 da Síria, dois da República Democrática do Congo, um de Camarões, um do Iraque e um da Líbia. Seis processos já foram deferidos, e 24 ainda estão em andamento.

“A grande maioria dos sírios tinha uma boa condição no seu país, e trazem para o Brasil uma alta qualificação profissional. Muitos deles falam três idiomas, têm mestrado”, diz Camila Suemi, advogada que coordena o processo na Compassiva.

“Isso também muda a visão de que esses refugiados chegam ao Brasil para roubar empregos ou para atrapalhar a economia. É justamente o oposto. Eles são extremamente qualificados, capacitados e empreendedores, e quando têm o diploma validado, contribuem para o crescimento de empresas brasileiras, geram empregos, pagam impostos”, defende André Leitão, presidente da Compassiva.

Para fazer a revalidação, o refugiado precisa comprovar a titulação por meio de documentos. Quando há alguma impossibilidade, as universidades aplicam provas de conhecimentos específicos – o procedimento é autorizado por uma resolução normativa do MEC.

Leitão lembra que a Universidade de Aleppo, por exemplo, foi completamente destruída pela guerra civil que há seis anos atinge a Síria, por isso se algum refugiado precisar de qualquer documento da instituição, será impossível conseguir. A ONG defende que os refugiados sejam isentos das taxas de revalidação que podem chegar a R$ 1 mil, por meio de políticas públicas e não apenas por iniciativa das universidades.

Quais são as 17 universidades parceiras da Acnur?

  • Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC -SP)
  • Universidade Católica de Santos (Unisantos) (*)
  • Universidade de Vila Velha (UVV) (*)
  • Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) (*)
  • Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos)
  • Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)
  • Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)
  • Universidade Federal de Roraima (UFRR)
  • Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
  • Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (*)
  • Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) (*)
  • Universidade Federal do ABC (UFABC) (*)
  • Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) (*)
  • Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp)
  • Universidade Federal do Paraná (UFPR) (*)
  • Fundação Casa de Ruy Barbosa (FCRB)
  • Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) (*)

(*) oferecem programas específicos para facilitar o acesso de refugiados

Fonte: https://g1.globo.com/educacao/noticia/universidades-brasileiras-matricularam-cerca-de-70-refugiados-em-2016-diz-acnur.ghtml