21 de março de 2017

 Na África, lugar que acolhe mais pessoas deslocadas depois do Oriente Médio, milhões de estudantes refugiados estão lutando para manterem-se na escola. Inovações como o INS ajudam a proporcionar continuidade na educação.

Tablets e redes móveis estão trazendo as novidades em matéria de educação online para os alunos em campos de refugiados e estão despertando o interesse deles em aprender.

BRASÍLIA, 20 de março de 2017 – Dekow Mohamed ainda continuou animada mesmo alguns dias depois de Malala Yousafzai, ganhadora do Prêmio Nobel e ativista de educação, ter visitado sua escola no campo de refugiados de Dadaab, no Quênia, em maio de 2016.

“Você não pode imaginar o quanto fiquei feliz quando a vi, cara a cara”, diz Dekow, uma refugiada da Somália. Aos 18 anos, ela é um ano mais jovem que a ativista paquistanesa que escapou de uma tentativa de assassinato depois de desafiar a proibição imposta pelo Taliban, segundo a qual as mulheres não podem estudar.

A história de Malala se espalhou pelo mundo e inspirou milhões de pessoas. Mas poderia ter passado despercebida por Dekow se não fosse a inovadora iniciativa chamada Instant Network Schools (INS), que trouxe educação online e conectividade à sua escola no campo de refugiados.

Escolas e centros comunitários selecionados são equipados com um “kit digital” que inclui um conjunto de tabletes, baterias recarregáveis via energia solar, uma rede de satélite móvel e materiais para a aprendizagem online. Os professores recebem suporte em tecnologia da informação e treinamento contínuo.

“Ouvimos de alunos e professores que o programa aumentou a motivação de ambos os lados”.

Desde a fase piloto, em Dadaab, no ano de 2014, o programa foi adotado por 31 centros em quatro países da região: Quênia, Tanzânia, Sudão do Sul e República Democrática do Congo.

O projeto cresceu organicamente a partir de uma parceria entre o ACNUR, a Agência da ONU para refugiados e a Fundação Vodafone, que trabalhava em escolas em Dadaab. As enormes lacunas em matéria de recursos e conectividade no campo deixaram claro como a tecnologia móvel poderia melhorar a qualidade da educação nessas áreas remotas.

Atualmente, mais de 65 milhões de pessoas estão fora de suas casas por conta de guerras e perseguições em todo o mundo, incluindo mais de 21 milhões de refugiados. Metade deles são crianças, muitas das quais não estão frequentando a escola. De acordo com um relatório do ACNUR, apenas 50% estão matriculadas na educação primária, 22% no ensino secundário e 1% no ensino superior.

Na África, lugar que acolhe mais pessoas deslocadas depois do Oriente Médio, milhões de estudantes refugiados estão lutando para manterem-se na escola. Inovações como o INS ajudam a proporcionar continuidade na educação.

Mesmo quando estão na escola, as crianças refugiadas na África frequentemente aprendem em condições extremamente difíceis, em classes superlotadas com recursos limitados. O ACNUR, por meio de programas como o INS, está ajudando a superar algumas dessas lacunas e a alcançar milhares de estudantes como Dekow.

“Os alunos entendem melhor o que veem ao invés do que ouvem. Costumávamos ouvir falar de muitas coisas que não conhecíamos”, diz Dekow. “Mas quando os tablets chegaram, até os nossos professores ficaram admirados com a nossa participação. Estamos em posição de responder a perguntas difíceis sem sequer consultar nossas anotações”.

Jacqueline Strecker, Gerente do Laboratório de Aprendizagem do UNHCR Innovation, diz que a ideia é levar uma abordagem holística, trazendo tecnologia para a sala de aula. “Nós queríamos usar a tecnologia para ajudar a melhorar o ensino por meio de um maior acesso à material didático relevante e informações atualizadas que os professores pudessem usar, incluindo na mistura vídeos e fotos educacionais para os alunos”.

“Isso vai ao encontro do compromisso do ACNUR de garantir educação de alta qualidade.”

Ela acrescenta: “Isso vai de encontro ao compromisso do ACNUR de garantir educação de alta qualidade, aumentando as salas de aula e fazendo com que os refugiados se beneficiem de material digital. Ouvimos de alunos e professores que o programa aumentou a motivação de ambos os lados. Os professores também estão mais entusiasmados em vir às escolas, e sentem que recebem apoio”.

Gadafi Mohamed, professor do campo de Hagadera em Dadaab, destaca o interesse adicional desencadeado por ter novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC) na sala de aula. “Antes de adotarmos as NTIC, muitos alunos nem sequer iam às aulas por falta de interesse”, diz.

“Desde que começamos a usar as NTIC, houve uma série de melhorias. É basicamente visualizar outras coisas além do ensino por meio de livros didáticos, e os alunos realmente se interessaram mais”.

O Instant Network Schools é um dos oito projetos de sete países apresentados no Africa Shares, um fórum de três dias em Genebra que mostrou como os refugiados podem fazer a diferença nas comunidades que os acolhem. O evento, que aconteceu nos dias 14 a 16 de março e foi apresentado pelo ACNUR, enfatiza que a inovação está em todo o continente e que os refugiados estão ativamente envolvidos em iniciativas bem-sucedidas.

Projetos incluem refugiados artesãos do Mali em Burkina Faso, uma iniciativa de leitura para crianças na Etiópia, um projeto ruandês de um forno energeticamente econômico, um projeto zimbabuense com aves, um projeto de conectividade da Microsoft Malauí e iniciativas de urbanização e gás subsidiado no Níger.

O ponto em comum em todos esses projetos é a abordagem comunitária que o ACNUR e os parceiros adotaram. Os refugiados são fundamentais em cada um deles e podem exercer as competências que já possuem enquanto aprendem novas.

“O maior trunfo do ACNUR é o fato de que temos comunidades que são altamente resilientes e muito criativas”, diz Strecker. “Permitir que eles usem sua criatividade para assumir o controle de tais projetos é o que realmente importa”.

Igualmente importante é o fato de que os refugiados na África são inspirados a usar a inovação para criar soluções caseiras. Para Dekow, a inovação não só melhorou sua experiência educacional, mas também a motivou a ser como Malala Yousafzai.

“O maior trunfo do ACNUR é o fato de que temos comunidades que são altamente resilientes e muito criativas”.

“A Malala disse-nos para falar”, conta. “Acho a mensagem dela muito inspiradora porque corresponde com o meu sonho. Meu sonho é me tornar advogada e transmitir a mensagem da educação à minha sociedade para que um dia, todos possamos nos tornar grandes pessoas neste mundo”.

A Educação em Emergências e Crises é o tema da Semana Móvel de Aprendizagem, a principal conferência da UNESCO sobre educação, que será realizada em Paris de 20 a 24 de março. A conferência reunirá especialistas e elaboradores de políticas de todo o mundo para explorar como fortalecer a inclusão na educação e preservar a continuidade da aprendizagem em contextos de conflito e desastre.

Este ano, o ACNUR participa da organização da conferência, com ênfase em como a tecnologia pode ajudar a proporcionar aos refugiados uma educação de qualidade.

Fonte: ACNUR