27 de fevereiro de 2019

No Peru, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) estimulou diálogos entre agentes de saúde e comunidades indígenas para ajudar as autoridades a entender por que tão poucas mulheres grávidas dos povos originários frequentavam as clínicas de saúde.

O resultado foi a descoberta de tradições e costumes próprios dessas comunidades, que foram incorporados aos serviços de atenção materna e neonatal. Adaptação contribuiu para reduzir os índices de mortes entre gestantes e recém-nascidos.

Edelmira Martina Antay Dávila se lembra do tempo em que as mulheres costumavam morrer no parto. “Eu costumava dar à luz em casa, mas não era bom”, conta a peruana ao Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). “As mulheres podem morrer, até mesmo de hemorragias.”

Edelmira mora em Churcampa, uma província montanhosa e remota localizada 2 mil metros acima do nível do mar. Sua comunidade é de maioria indígena.

Vinte anos atrás, oito em cada dez mulheres de Churcampa davam à luz em casa, com a ajuda apenas de parentes e auxiliares de parto sem qualificação. As que não procuravam atendimento profissional e acabavam sofrendo complicações mais sérias encontravam, muitas vezes, instalações de saúde despreparadas para lidar com a situação.

Mas hoje tudo mudou. Atualmente, 95% dos partos na província acontecem no Centro de Saúde de Churcampa — e a saúde materna melhorou consideravelmente.

“Eu tenho cinco filhos: Elizabeth, Edgar, Dayana, Edú e Sauri”, conta Edelmira. “Os primeiros, eu tive em casa, mas agora eu tenho o parto no Centro de Saúde de Churcampa.”

Grande parte dessa transformação é devido ao esforço direcionado de oficiais de saúde para respeitar as tradições do nascimento das crianças e a cultura das mulheres locais.

Ouvindo as mulheres

Em toda a América Latina e Caribe, aproximadamente 1 milhão de mulheres dão à luz por ano fora de instalações de saúde — o que as deixa mais vulneráveis a complicações. Anualmente na região, em torno de 7,3 mil mulheres morrem de causas associadas à gravidez.

Mas o Peru obteve progressos notáveis na proteção das vidas de suas mães. Entre 1990 e 2015, o país registrou uma redução de quase 73% na taxa de mortes maternas. Esforços para encorajar as mulheres a dar à luz em centros de saúde bem equipados, com equipes profissionais, desempenharam um papel fundamental nessa conquista.

E para isso, os sistemas rurais de saúde tiveram de abraçar algo que eles ignoravam: as tradições e práticas de povos originários.

Começou há cerca de uma década, nas regiões de Huancavelica — onde fica Churcampa — e Ayacucho. Nas duas localidades, o UNFPA e a organização Medicus Mundi Navarra estimularam diálogos entre as autoridades de saúde e a comunidade local, com o intuito de entender por que tão poucas mulheres indígenas estavam recebendo cuidados nas clínicas.

Agentes de saúde descobriram que as mulheres indígenas queriam poder falar a sua língua nativa, o Quechua, durante o atendimento. Elas também queriam ser acompanhadas por membros da família no parto e muitas delas preferiam certos remédios tradicionais, como ervas usadas para tratar enjoos.

Muitas mulheres também queriam dar à luz na posição vertical, com a ajuda de uma corda pendurada do teto, em vez de ficarem deitadas num leito de parto, na posição horizontal.

Abraçando a cultura e a comunidade

Conforme as clínicas e os profissionais de saúde melhoraram a qualidade do atendimento e acomodaram os costumes locais, mais mulheres começaram a ter seus filhos nos centros de saúde — e menos mulheres morreram.

“Graças a cuidados de saúde materna sensíveis à cultura, estamos vendo um declínio na morbidade e na mortalidade neonatal e materna em nossas comunidades e centros de saúde”, afirma Miriam Gutiérrez Castro, obstetra da clínica de Vilcashuamán, em Ayacucho.

Autoridades de Churcampa também dizem ter observado um aumento na demanda por serviços de saúde materna e neonatal, assim como níveis mais altos de satisfação.

“Agora, gostamos de vir ao Centro de Saúde de Churcampa porque eles nos tratam como se estivéssemos em casa, e podemos dar à luz com a corda, e (nos tratam) como nós gostamos de ser tratadas”, acrescenta Edelmira em entrevista ao UNFPA.

“Nossos maridos também participam e, quando eles não estão aqui, nossas famílias nos apoiam.”

Mesmo com os avanços, as taxas de mortalidade materna entre as mulheres indígenas permanecem mais altas do que entre a população geral. E a maioria dessas mortes ocorre devido a causas evitáveis.

Esforços para alcançar tanto as comunidades locais, quanto os provedores de saúde, precisam continuar. No ano passado, o UNFPA ajudou profissionais de saúde de Ayacucho a visitar seus colegas em Churcampa e trocar boas práticas e conhecimentos.

E as mulheres também estão encorajando umas às outras a buscar os serviços de saúde.

“Eu me sinto bem porque sou tratada bem e com carinho”, diz Edelmira na clínica. “É desse jeito que nós gostamos e é por isso que eu gostaria que outras mulheres viessem aqui para receber cuidados.”

Fonte: nacoesunidas.org