21 de fevereiro de 2018

idi braEm embarcações frágeis, congoleses enfrentam as águas perigosas do Lago Alberto.

Em embarcações frágeis, congoleses enfrentam as águas perigosas do Lago Alberto.

SEBAGORO, Uganda (ACNUR) – Com a ajuda de seu filho, Jack Bandinga está arrumando seus pertences na costa ugandense do lago Alberto.

“Nós vimos os corpos do nosso povo no chão”, relembra. “As pessoas foram cortadas com machetes. Estas são as coisas que testemunhamos”.

Jack tem sorte de ter escapado da violência em sua área de origem, a região de Toregesi, na província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo (RDC). Depois de se esconder no mato por dois dias, ele, sua esposa e seus quatro filhos chegaram em Uganda, após atravessarem o lago a bordo de um barco de pesca em uma viagem de cinco horas repleta de perigo.

Na semana passada, em apenas três dias, mais de 22.000 congoleses cruzaram o lago Alberto rumo à Uganda, fazendo com que o número total de pessoas da RDC a chegar ao país atingisse a marca de cerca de 34 mil desde o início do ano.

Os refugiados usam canoas pequenas ou barcos de pesca superlotados e frágeis, que muitas vezes carregam mais de 250 pessoas em uma viagem que pode durar até 10 horas. O ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, expressou sua tristeza com a notícia do afogamento de quatro refugiados congoleses após o barco em que viajavam ter virado.

“Vi muitas pessoas morrerem de fome”.

Nas margens do lago Alberto, multidões de congoleses recém-chegados se aglomeram, coletando seus pertences ou esperando para ver se membros da família e parentes também chegaram.

Anita Mave, 24 anos, está entre aqueles que esperam pela família. Ela não tem certeza se eles estão vivos. Quando os conflitos se intensificaram, ela foi separada do marido e dos dois filhos.

“Meu marido partiu em uma direção e eu, em outra”, conta. “Não tenho certeza se ele e meus filhos foram mortos ou se estão vivos”.

A bordo de um barco, Anita atravessou o lago Alberto, esperando reunir-se com eles do outro lado. Ela não os viu e nem teve notícias de seu paradeiro.

“Não há comida lá. Vi muitas pessoas morrerem de fome”, diz. “Nós apenas sobrevivemos como animais selvagens”.

O agravamento da luta entre grupos étnicos criou uma onda de deslocamento que se estende ao longo do lago rumo à Uganda. Na semana passada, mais de 1.300 pessoas atravessaram a aldeia ugandesa de Sebagoro, onde o ACNUR criou um centro de emergência para receber aqueles chegam.

“A situação é bastante terrível”, afirma Andrew Harper, da Divisão de Apoio e Gestão de Programas do ACNUR. “Falta água, comida, equipamento médico e abrigo”.

Ele conta que os principais objetivos do ACNUR são registrar as chegadas, levar os recém-chegados para as áreas alocadas pelo governo ugandês e construir infraestrutura, como abrigos.

Na região, dezenas de pessoas foram mortas nos combates e milhares foram deslocadas. Há relatos perturbadores de aldeias completamente incendiadas. A maioria dos deslocados recebem assistência limitada e têm acesso às necessidades básicas, como alimentos, água e suprimentos de emergência.

O ACNUR está em alerta máximo em ambos os lados da fronteira e reitera a necessidade de maiores esforços para garantir aos refugiados segurança e ajuda humanitária.

A agência está trabalhando com o governo de Uganda para facilitar o registro dos que chegam, o que é essencial para a sua realocação para o centro de acolhimento de Kagoma, no distrito de Hoima, no oeste de Uganda.

Mais de cinco milhões de pessoas foram deslocadas à força em razão do conflito na RDC. Cerca de 4,49 milhões são deslocados internos e mais de 680 mil foram forçados a fugir para países vizinhos, como Uganda e Burundi.

“A única ajuda que pedimos é a paz no nosso país, o Congo”, diz Jack Bandinga. “Viemos para Uganda em busca de segurança, então um Congo pacífico é o único auxílio do qual precisamos”

Fonte: www.acnur.org