27 de setembro de 2019

Onda de ataques volta-se contra imigrantes africanos e colonos brancos. Há mortes, destruição e fuga para outros países — Nigéria, Moçambique, Zâmbia e até Líbia. Em país flagelado pela pobreza, governo esconde seu fracasso com novo apartheid?

Quando o Congresso Nacional Africano, sob a liderança de Nelson Mandela, pôs fim ao apartheid na África do Sul, o futuro parecia auspicioso, por conta de um projeto nacional baseado na convivência multiétnica, que durante quase meio século tinha sido impossível.

Depois de 25 anos, já não resta quase nada desse sonho de convivência. Os surtos de violência xenófoba contra imigrantes, com a destruição de seus pequenos comércios e ataques a facão contra eles, em plena rua, à luz do dia, tanto quanto os assassinatos de pequenos agricultores bôeres, já são algo normal numa África do Sul em ruína econômica (com 28% de desemprego e metade da população adulta vivendo sob a linha da pobreza), socialmente quebrada e tremendamente violenta.

No começo deste mês pipocaram em Johanesburgo levantes xenófobos contra imigrantes africanos ― que se juntam aos que aconteceram em abril ― e que resultaram em dezenas de comércios fechados, outros tantos destruídos por fogo e dez assassinatos.

Os recentes ataques indiscriminados ― e injustificados ― contra imigrantes, ao que parece, foram o ponto de inflexão que trará outras consequências para o país. A Nigéria iniciou o processo de repatriação de centenas dos seus trabalhadores regulares, cuja integridade está ameaçada. Outros 600 nigerianos já pensam em voltar ao seu país nos próximos dias. Alguns por temer pela própria vida; outros porque perderam tudo nos ataques.

Além da população estrangeira, os bôeres (grupo germânico protestante que habita a África do Sul) também se viram, nos últimos anos, obrigados a abandonar as terras que habitam há mais de três séculos. Muitos foram para o norte: para Moçambique, Sudão, Zâmbia e até a Líbia, onde sua experiência de trabalhar a terra nas duras condições africanas é bastante valorizada.

A Rússia também acabou se tornando um país que encontrou possibilidades para o próprio crescimento a partir do desastre sul-africano. No ano passado ela acolheu as primeiras 50 famílias bôeres que buscaram asilo, fugindo dos ataques e assassinatos de que eram vítimas em seu país. Estima-se que cerca de 15.000 bôeres estariam dispostos a viajar para a Rússia, para continuar vivendo como pequenos agricultores.

Pobreza e discriminação: as duas caras de uma mesma moeda

A pobreza e o analfabetismo são o terreno fértil perfeito para que a população sul-africana assuma, assimile e naturalize cada vez mais as ideias discriminatórias, como se fossem incapazes de aprender com a sua própria história. Conforme pesquisa do Pew Research Center, 62% dos sul-africanos veem os imigrantes como uma ameaça que chega para lhes roubar o trabalho e os benefícios sociais. Essas ideias acabam se traduzindo no fato que os ataques xenófobos, dirigidos majoritariamente contra imigrantes procedentes da Nigéria, Malawi, Somália, Zimbábue e Moçambique, mantêm-se em alta ― em 2008 tinha atingido o pico até então de 67 assassinatos (estimando-se, no entanto, que o número seja maior que o registro oficial).

Segundo o Centro Africano para a Imigração e Sociedade, da Universidade Witwatersrand de Johanesburgo, a violência xenófoba se converteu em característica social da África do Sul pós-apartheid.

Não se pode entender o problema sem olhar para o passado e conhecer os fundamentos da sociedade sul-africana: um país criado a partir da segregação e construído sobre o ódio, onde, hoje, um governo medíocre oculta seu fracasso lançando mão dos mesmos discursos raciais, uma boa dose de populismo barato e muitas mentiras, para tentar reescrever a história da maneira como bem entende.

O fato de que “Dubul’ ibuhunu” (“Atire no bôer!”) seja uma canção ainda popular entre os dirigentes do Congresso Nacional Africano, que não ocultam seu ódio racial a uma comunidade específica, diz muito sobre o tipo de governo que existe hoje África do Sul.

Há duas formas de justificar o racismo do CNA:

1. Como não se constrange em dizer o popular político sul-africano ― de origem zulu ― Mbyiseni Ndlozi, “tomar as terras dos brancos é justo porque não são realmente suas terras”.

2. Os bôeres continuariam sendo não mais que supremacistas brancos que não aceitam o fim do apartheid.

Ambas as afirmações, no entanto, partem de premissas falsas, e só um miserável encontraria guarida nelas para justificar o ódio contra comunidades inteiras por conta de raça ou etnia.

De uma parte, vale sublinhar que os bantu em geral ― e os Zulu em particular ―, que se tornaram o grupo étnico majoritário na África do Sul, foram “os últimos a chegar”. E o fizeram por meio da conquista e extermínio de outras tribos, durante o que hoje se conhece como Mfekane (“esmagamento”). A única população que se poderia considerar autóctone na África do Sul são os bosquímanos Khoisan, atualmente marginalizados e sem o reconhecimento de seu direito imemorial à terra, por parte desses mesmos autocratas que enchem a boca para falar em recuperar as terras das mãos dos brancos.

No mesmo sentido, a primeira comunidade a começar a trabalhar as terras abandonadas depois da grande seca do século XVI foram os camponeses protestantes bôeres, que chegaram da Europa trazidos pela Companhia Holandesa das Índias, para um lugar desabitado em 1652 [N. do T.: Na expansão das suas linhas comerciais para o leste no final do século XVIII, os bôeres entraram em um conflito intermitente com os Xhosa, um grupo bantu já estabelecido, do qual são originários Nelson Mandela e o arcebispo anglicano Desmond Tutu, chegando inclusive a se aliar com os Khoisan. Foi a intervenção militar britânica no início do século XIX que isolou os Xhosa e garantiu a tranquilidade dos bôeres]. Só depois chegaram os Zulu, originários do Malawi, que nos anos que se seguiram a 1818 experimentaram um período de expansão proporcionada pelas conquistas do seu rei Shaka Zulu.

Por outro lado, se é inteiramente correto que a fração mais radical dos afrikaners representados no Partido Nacional instaurou o apartheid em 1948, os bôeres de hoje não são muito mais que colonos brancos, muitos dos quais humildes. Ainda assim, se alguém se presta ao ridículo de supor que a cor da pele determina a ideologia, não seria demais lembrar que no movimento antiapartheid também participaram muitos brancos, entre eles, por exemplo, o líder do Partido Comunista Sul-Africano, Joe Slovo, de origem lituana, que formou parte do governo surgido das primeiras eleições pós-apartheid.

Mas há aqueles que continuam ofuscados pelo idioma do ódio, simplesmente porque lhes convêm. Culpar os brancos ou os imigrantes pelos males por que passa o país em ruínas é bastante cômodo. Trata-se de uma artimanha que já se viveu na Europa, e que não terminou exatamente bem. O problema surge quando a população adere ao discurso, o replica e até dança quando o político da vez surge cantando que é preciso matar os colonos, apontando, nesse caso, diretamente para os bôeres.

No entanto, a xenofobia, o racismo e a segregação de fato entre comunidades não é algo que se reflita apenas nos ataques indiscriminados contra pequenos comércios, em homicídios e/ou em canções. Trata-se de um problema assentado nas próprias bases do novo regime sul-africano criado em 1994, que, em lugar de destruir o apartheid como sistema, se limitou a descartar alguns pontos, manter outros e mudar-lhe a cor. Assim, ainda encontramos na África do Sul, leis que, como no apartheid, promovem a segregação e bonificam a cor da pele.

Para reverter a inegável situação de desigualdade gerada pelo apartheid, que durante anos blindou os privilégios dos brancos, o Congresso Nacional Africano decidiu lançar em 2003 ― uma década depois do fim daquele regime de segregação ― o programa de Empoderamento Econômico Negro (EEN) que outorga à população “de cor” (a lei distingue como gente de cor os negros, indianos e chineses) um status especial frente aos colonos brancos.

O programa de Empoderamento Econômico Negro consiste em outorgar privilégios aos grupos que teriam sofrido a marginalização do apartheid, bonificando a propriedade não branca para “igualar a balança”. No entanto, 16 anos depois, esse programa parece ter servido apenas para criar um novo tipo de apartheid encoberto, enriquecer uma elite bem definida e aumentar a brecha de desigualdade entre pobres e ricos. Sequer as mulheres negras, que supostamente seriam as mais beneficiadas com o EEN, chegam hoje a avaliar positivamente o programa. Pouco antes do seu lançamento, uma das principais figuras da luta contra o apartheid, o arcebispo Desmond Tutu, alertou para a possibilidade de o EEN servir apenas para substituir uma elite por outra. Ele parece não ter se equivocado.

Enquanto a África do Sul evidencia seu fracasso econômico, social e político, os imigrantes voltam a seus países fugindo do ódio e os colonos buscam asilo longe da violência. Ao terminar cada dia, 58 pessoas mais terão sido assassinadas. Em um ano são mais de 20.000 homicídios. Entre as vítimas, estarão aqueles que perderam a vida unicamente por conta da sua nacionalidade, etnia ou cor da pele. Quantos? O número exato jamais se saberá, será apenas uma cifra a mais entre os milhares de homicídios que fazem sangrar um país no qual a discriminação, de fato, mata.

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