5 de setembro de 2019

O chamado Corredor Seco na América Central é uma das regiões mais expostas às mudanças climáticas. Chuvas irregulares e secas prolongadas acentuam a crise alimentar nos países e para muitas pessoas não resta alternativa senão migrar. O recente fenómeno das caravanas de migrantes que atravessavam a América Central em direcção aos Estados Unidos foi um exemplo disso.

De acordo com o Programa Mundial Alimentar, cerca de 2,2 milhões de pessoas são afectadas pela irregularidade climática na região, das quais 1,4 milhões necessitam de assistência alimentar urgente.

Laura Melo, directora do Programa Mundial Alimentar na Guatemala, conversou com a reportagem da RFI durante sua passagem por Roma para um encontro entre os directores do PAM nos países do Corredor Seco para avaliar os resultados alcançados e planear as próximas metas da emergência alimentar.

Guatemala

A Guatemala tem uma população de 17 milhões de pessoas, das quais 3,3 milhões se encontram em situação de insegurança alimentar. Metade das crianças sofre de desnutrição crónica e quase 60% da população vive abaixo da linha da pobreza, sobretudo nas zonas rurais.

Num dos países mais desiguais do mundo, onde a concentração de renda é elevada, perder a colheita de subsistência por condições climáticas adversas representa a maior ameaça à vida dos pequenos agricultores. Diante da perda, muitos deixam tudo para trás e vão em busca do sonho de uma vida nova em outras regiões ou países.

“Quando as condições de vida começam a deteriorar-se, quando as famílias têm pouco o que comer, quando não têm dinheiro para comprar alimentos, elas buscam alternativas e muitas vezes a primeira é migrar. Mas muitas vezes antes da migração externa há uma migração interna e são sobretudo os homens que migram. Estudos que nós temos mostram precisamente isto: que a fome e a pobreza são um dos principais factores que levam as pessoas à emigração deixando para trás famílias em situação de grande vulnerabilidade”, explica Laura Melo.

O PAM na Guatemala trabalha somente com 25% do orçamento necessário para enfrentar a emergência alimentar.
Ainda assim, em casos de secas prolongadas ou situações de vulnerabilidade de famílias afectadas pela migração, são as mulheres que recebem os benefícios, num contexto em que se fala da “feminização da pobreza”.

“Podemos dar auxílio imediato a algumas dessas famílias através de transferências monetárias que ajudam a estabilizar os meios de vida e a sua capacidade de se alimentar. Ou seja, damos uma quantidade de dinheiro às mulheres que lhes permite comprar alimentos”, revela.

Vulnerabilidade

As migrações acentuam ainda mais os índices de violência contra as mulheres, as mais castigadas pelas discriminações de género na Guatemala, de acordo com Laura.

“Não há dúvida que num país como a Guatemala é bastante triste de ver que as mulheres são as mais pobres das mais pobres, as mais vulneráveis das mais vulneráveis. Há um grande problema de violência contra as mulheres, de discriminação contra várias populações indígenas, mas as mulheres entre essas populações são ainda mais discriminadas. A Guatemala necessita de um grande compromisso, de uma grande dedicação para poder trazer algumas mudanças que beneficiem as mulheres”, diz.

Resiliência

A base da alimentação na Guatemala são o milho e o feijão, duas das monoculturas mais sensíveis às mudanças climáticas. Diante desse quadro, o PAM actua para conscientizar os produtores sobre a necessidade de diversificar as culturas e garantir assim uma colheita mínima mesmo em condições adversas. A produção de galinhas e ovos e de peixes também é uma alternativa para garantir alimentos em caso de quebra de safras.

“O que vimos agora após o último período de seca que o país viveu foi que com as famílias com quem tínhamos trabalhado conseguiram manter a produção de alimentos, inclusive com maior qualidade nutricional”, conclui a directora do PAM na Guatemala

rfi