Falta de recursos e violência sufocam a vida de famílias congolesas

11 de outubro de 2018

Com a violência e o deslocamento afetando áreas da região oriental da República Democrática do Congo, a falta de recursos está prejudicando a resposta do ACNUR.

Bambou, 41 anos, seu marido e 12 crianças fugiram da aldeia de Bwili, no território de Beni, há um ano. Eles moram no bairro de Madiabuana, em Beni. Eles tentaram retornar a Bwili quatro vezes desde que fugiram. Ela hospeda outras famílias deslocadas no terreno que ela está alugando. © ACNUR / Natalia Micevic

Quando, há cerca de um ano, assaltantes armados atacaram sua aldeia, Agnes, de 42 anos, só pensava em levar os seis filhos para um lugar seguro. Ela morava no território de Beni, na província de Kivu Norte da República Democrática do Congo.

“Os assaltantes vieram à vila de Kamambia à noite”, lembrou ela. “Uma de minhas filhas já tinha fugido com a irmã e eu fugi a pé com meus outros quatro filhos. Dormimos no mato, no chão frio. Foi tão assustador.”

Dezenas de milhares de pessoas no Beni e nos arredores já abandonaram suas casas em busca de segurança, e o número não para de crescer. Ao mesmo tempo, muitos daqueles que se deslocaram no ano anterior – como Agnes – ainda não possuem um lugar adequado para morar.

“Eu não sei como criar meus filhos vivendo assim.”

Incapaz de voltar para casa devido à violência constante, Agnes e suas filhas passam a noite alojadas em uma escola na cidade de Oicha, juntamente com dezenas de outras famílias deslocadas.

“Nós temos que recolher nossos pertences todas as manhãs e desocupar as instalações quando as aulas começam. Ficamos sem abrigo, mesmo que esteja chovendo”, explicou Agnes. “Não temos acesso a lenha ou a água limpa. Eu não sei como criar meus filhos vivendo assim. É impossível viver desta maneira.”

Os deslocamentos continuam crescendo na região de Beni, na República Democrática do Congo, fronteira nordeste com Uganda, alimentada por uma onda de ataques fatais de grupos armados contra civis.

Em toda a província de Kivu Norte, estima-se que mais de meio milhão de pessoas tenham fugido de suas casas somente em 2018, criando a maior concentração de pessoas deslocadas internas por conta do conflito e afetadas pelo Ebola no país centro-africano.

Neste vasto país, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está fazendo o que pode para ajudar as famílias mais vulneráveis, por meio de projetos de abrigo, subsídios de auxílio financeiro, monitoramento de proteção e de apoio à sobreviventes de violações de direitos humanos. Agnes e sua família logo serão transferidas para um compartimento familiar em um abrigo coletivo criado pela Agência.

Mas eles estão entre os poucos privilegiados, uma vez que os esforços do ACNUR estão sendo severamente reduzidos devido aos baixos níveis de financiamento às emergências. Até agora, a Agência recebeu apenas 31% dos US$ 369 milhões que foram solicitados para assistir aos deslocados na República Democrática do Congo e os refugiados congoleses em outros países africanos em 2018.

 “Nosso principal desafio é a falta de recursos”

Como resultado, os novos números divulgados hoje mostram que a situação congolesa é uma das seis crises de refugiados e deslocados mais afetadas pela atual crise de financiamento do ACNUR.

“Trabalhar na República Democrática do Congo traz muitos desafios”, disse Ann Encontre, Representante Regional do ACNUR e Coordenadora Regional de Refugiados para a Situação Congolesa, baseada na capital da República Democrática do Congo, Kinshasa. “Precisamos operar em zonas de guerra e em áreas controladas por grupos armados. Em muitas áreas, quase não existem estradas. Ainda assim, encontramos maneiras de alcançar as pessoas que precisam de nossa ajuda.”

“Mas o nosso principal desafio é a falta de recursos”, acrescentou. “Nossa equipe tão dedicada em campo poderia fazer muito mais para apoiar os deslocados pelo conflito se tivéssemos mais recursos.”

Como resultado, o ACNUR é forçado a fazer escolhas difíceis que resultam em cortes de assistência necessária a pessoas em situações vulneráveis.

“Eu só quero que a guerra acabe.”

Apenas uma em cada onze famílias das mais vulneráveis ​​na República Democrática do Congo rebem assistência de abrigo, de acordo com uma análise sobre os primeiros nove meses deste ano. Aqueles que vivem em abrigos improvisados ​​ou ficam com famílias de acolhimento em condições de superlotação são obrigados a se defenderem sozinhos.

Uma dessas pessoas é Paluku, 38 anos, que fugiu de sua casa cinco meses atrás quando a violência irrompeu em Kiharo, nos arredores da cidade de Beni. Agora, ele está hospedado com outras 80 pessoas no terreno de Jeanne, uma moradora local, em outra parte da cidade.

“Os assaltantes vieram com facões em uma noite em Kiharo e atacaram dois homens velhos”, disse Paluku. “O bairro inteiro fugiu para outras partes da cidade. Eu ainda tenho minha casa lá, mas é muito perigoso voltar. Então, estamos ficando com Jeanne, que é gentil o suficiente para nos receber.

“Eu seria a pessoa mais feliz do mundo se a paz retornasse”, acrescentou. “Podemos lidar com todos os outros problemas, desde que tenhamos paz. Eu só quero que a guerra termine.”

Fonte: Acnur

 

By | 2018-10-15T12:03:36+00:00 11 de outubro de 2018|0 Comments