{"id":26282,"date":"2025-12-15T09:50:43","date_gmt":"2025-12-15T12:50:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.csem.org.br\/?post_type=csem_em_foco&#038;p=26282"},"modified":"2025-12-15T10:56:51","modified_gmt":"2025-12-15T13:56:51","slug":"o-rosto-humano-da-migracao-e-do-refugio-no-brasil-historias-que-recomecam-onde-ha-acolhida","status":"publish","type":"csem_em_foco","link":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/csem_em_foco\/o-rosto-humano-da-migracao-e-do-refugio-no-brasil-historias-que-recomecam-onde-ha-acolhida\/","title":{"rendered":"Giornata internazionale dei migranti: Storie che ricominciano dove c'\u00e8 accoglienza"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"wp-block-heading\"><\/h1>\n\n\n\n<p><em>Em ocasi\u00e3o do Dia Internacional do Migrante, 18 de dezembro, Diana Mundarain escreve sobre sua experi\u00eancia no Encontro da Rede Clamor \u2013 convite recebido pelo Centro Scalabriniano de Estudos Migrat\u00f3rios (CSEM)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada<ins>,<\/ins> raramente<ins>,<\/ins> come\u00e7a com uma mala pronta. Come\u00e7a com uma ruptura. No meu caso, a ruptura teve nome: a crise humanit\u00e1ria que tomou a Venezuela e estrangulou a vida cotidiana. Quando cheguei ao Brasil, carregava comigo o mesmo sentimento que tantas pessoas venezuelanas compartilham, o de partir sem despedidas completas, deixando para tr\u00e1s mais do que coisas: deixando rotinas, mem\u00f3rias e afetos.<\/p>\n\n\n\n<p>Atravessar a fronteira foi, ao mesmo tempo, um gesto de prote\u00e7\u00e3o e um salto para o desconhecido. Em Roraima, o Brasil me recebeu com o choque das primeiras vezes: a l\u00edngua que eu n\u00e3o entendia completamente, a comida cujo sabor eu buscava decifrar, a sensa\u00e7\u00e3o de estar deslocada no tempo e no espa\u00e7o. Percebi, ali, que a migra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma travessia que marca o corpo e a alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo desse caminho, compreendi a migra\u00e7\u00e3o como experi\u00eancia humana antes do que como objeto de estudo. Somente depois, j\u00e1 trabalhando como assistente de pesquisa no Centro Scalabriniano de Estudos Migrat\u00f3rios (CSEM), pude revisitar a minha pr\u00f3pria travessia \u00e0 luz de um fen\u00f4meno global. Ali, encontrei n\u00e3o apenas ferramentas acad\u00eamicas, mas reconhecimento. O CSEM tornou efetivo seu n\u00facleo duro: <strong>o protagonismo migrante<\/strong>. A institui\u00e7\u00e3o acreditou no meu potencial quando eu ainda duvidava de muitas coisas. Confiou na minha capacidade de ag\u00eancia, na minha for\u00e7a de reconstru\u00e7\u00e3o, e me deu uma oportunidade que mudou o rumo da minha vida no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou, portanto, parte das pessoas que recome\u00e7am n\u00e3o apenas por determina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, mas porque algu\u00e9m decidiu estender a m\u00e3o. Porque algu\u00e9m preferiu arriscar-se a errar, fazer perguntas, aproximar-se em vez de escolher o sil\u00eancio e a dist\u00e2ncia. A solidariedade, quando se torna pr\u00e1tica concreta, transforma destinos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que, ao receber o convite do CSEM para falar no Encontro da Rede Clamor sobre <strong>\u201cO rosto da migra\u00e7\u00e3o e do ref\u00fagio no Brasil: desafios e esperan\u00e7as\u201d<\/strong>, decidi que minha fala precisaria ir al\u00e9m das estat\u00edsticas. Os n\u00fameros s\u00e3o importantes, mas n\u00e3o revelam as hist\u00f3rias escondidas por tr\u00e1s deles. N\u00e3o mostram os medos, as perdas, os aprendizados, a resili\u00eancia. E, sobretudo, n\u00e3o mostram os rostos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><strong>Uma menina chamada Mariana<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Entre os muitos rostos migrantes apresento nesta jornada, um que me marcou profundamente: o da Mariana, uma crian\u00e7a migrante venezuelana que participou de atividades de acolhida. Com a simplicidade e a profundidade pr\u00f3prias das crian\u00e7as, Mariana ofereceu um testemunho que ilumina o que significa recome\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela disse:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>\u201cEu gostaria que entendessem que a gente tem sentimentos. E que perguntassem sobre mim: por que eu deixei meu pa\u00eds? Como ele \u00e9?\u201d<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nessas frases, h\u00e1 mais do que palavras: h\u00e1 um pedido de reconhecimento. Mariana quer ser vista, n\u00e3o como \u201ca migrante\u201d, mas como pessoa. Quer que lhe perguntem sobre sua hist\u00f3ria, suas comidas favoritas, suas brincadeiras, seu pa\u00eds de origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela contou que, ao chegar ao Brasil, sentiu tristeza porque \u201cn\u00e3o conhecia ningu\u00e9m\u201d. Entretanto, tamb\u00e9m disse algo que revela uma for\u00e7a imensa: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><strong>\u201cA tristeza passa. N\u00e3o fica eternamente.\u201d<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para ela, a esperan\u00e7a se constr\u00f3i no cotidiano: na escola, na aprendizagem do idioma, na dedica\u00e7\u00e3o para diminuir as dificuldades. Mariana ainda estranha algumas comidas brasileiras, acha a canjica curiosa, gosta de salgadinhos, mas sente falta das arepas, da banana frita e do sabor da galinhada preparada \u201ccomo na Venezuela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O testemunho dessa menina exp\u00f5e uma dimens\u00e3o fundamental da migra\u00e7\u00e3o: a inf\u00e2ncia migrante \u00e9 feita de pequenas rupturas e pequenos recome\u00e7os. E \u00e9 tamb\u00e9m nela que se desenha o futuro da integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"277\" height=\"369\" src=\"https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2-edited.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-26287\" style=\"aspect-ratio:0.750733137829912;width:294px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2-edited.jpeg 277w, https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2-edited-225x300.jpeg 225w, https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-2-edited-9x12.jpeg 9w\" sizes=\"(max-width: 277px) 100vw, 277px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Entre os participantes, Paulo S\u00e9rgio Almeida, Oficial de meios de vida e inclus\u00e3o econ\u00f4mica do ACNUR e professora da UnB, Zakia Ismail Hachem<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><strong>Acolhimento: entre o gesto e a \u00e9tica<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O que nos permite recome\u00e7ar n\u00e3o s\u00e3o apenas pol\u00edticas p\u00fablicas ou documentos regularizados, embora sejam essenciais. O que realmente sustenta o renascimento de quem migra s\u00e3o as atitudes de acolhida. S\u00e3o os gestos simples, mas decisivos, de quem pergunta, de quem escuta, de quem compartilha, de quem reconhece a dor e a dignidade do outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A migra\u00e7\u00e3o, como experi\u00eancia humana, exige muito mais do que toler\u00e2ncia. Exige <strong>solidariedade \u00e9tica<\/strong>, aquela que se compromete, que aprende com o encontro, que renuncia \u00e0 indiferen\u00e7a. Exige coragem para ultrapassar o medo do desconhecido e disposi\u00e7\u00e3o para perguntar, mesmo correndo o risco de errar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando institui\u00e7\u00f5es como o CSEM acreditam no protagonismo migrante, quando comunidades se abrem ao di\u00e1logo e \u00e0 conviv\u00eancia, quando escolas acolhem crian\u00e7as como Mariana com paci\u00eancia e curiosidade, algo se transforma profundamente. A migra\u00e7\u00e3o deixa de ser vista como amea\u00e7a e passa a ser percebida como encontro, partilha e potencial de renova\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"605\" height=\"446\" src=\"https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-26286\" style=\"aspect-ratio:1.3565163871364825;width:519px;height:auto\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-3.jpeg 605w, https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-3-300x221.jpeg 300w, https:\/\/www.csem.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/image-3-16x12.jpeg 16w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><a><\/a><strong>Hist\u00f3rias que recome\u00e7am quando h\u00e1 oportunidade<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Hoje, olhando para tr\u00e1s, percebo que minha trajet\u00f3ria no Brasil \u00e9 marcada por muitas dores, mas tamb\u00e9m por muitas m\u00e3os estendidas. Nada teria sido poss\u00edvel sem as pessoas e institui\u00e7\u00f5es que foram ponte e n\u00e3o muro. Pessoas que escolheram perguntar em vez de julgar, apoiar em vez de invisibilizar. <strong>Oportunidades mudam vidas.<\/strong> E migrantes, quando t\u00eam oportunidades, mostram suas capacidades e constroem caminhos de contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao participar do Encontro da Rede Clamor, quero reafirmar uma convic\u00e7\u00e3o profunda:<br>- <strong>A migra\u00e7\u00e3o tem rosto, tem voz e esperan\u00e7a<\/strong>.<br>&#8211; E esse rosto, seja o de Mariana, o meu ou o de tantos outros&nbsp; nos lembra que acolher \u00e9 um ato transformador tanto para quem recebe quanto para quem chega.<\/p>\n\n\n\n<p>A migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Crise \u00e9 a incapacidade de olhar o outro como humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto houver quem estenda a m\u00e3o e ofere\u00e7a oportunidades reais, haver\u00e1 sempre hist\u00f3rias de reconstru\u00e7\u00e3o, coragem e vida nova. E \u00e9 isso, afinal, que faz a ponte entre a Migra\u00e7\u00e3o<ins>,<\/ins> o Ref\u00fagio e a esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>","protected":false},"featured_media":26289,"parent":0,"template":"","categories":[],"class_list":["post-26282","csem_em_foco","type-csem_em_foco","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/csem_em_foco\/26282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/csem_em_foco"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/csem_em_foco"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}