{"id":18059,"date":"2020-08-01T22:55:37","date_gmt":"2020-08-02T01:55:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.csem.org.br\/?post_type=csem_em_foco&#038;p=18059"},"modified":"2023-07-21T16:18:48","modified_gmt":"2023-07-21T19:18:48","slug":"contextos-da-sociedade-civil-no-ambito-da-mobilidade-humana-nova-edicao-da-remhu","status":"publish","type":"csem_em_foco","link":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/csem_em_foco\/contextos-da-sociedade-civil-no-ambito-da-mobilidade-humana-nova-edicao-da-remhu\/","title":{"rendered":"Contextos da sociedade civil no \u00e2mbito da mobilidade humana: nova edi\u00e7\u00e3o da REMHU"},"content":{"rendered":"<p>Em sua recente edi\u00e7\u00e3o, a REMHU apresenta o dossi\u00ea \u201cA Sociedade Civil no Contexto da Mobilidade Humana\u201d, focado na atua\u00e7\u00e3o do terceiro setor diretamente com pessoas migrantes e refugiadas. O editor-chefe da revista, Roberto Marinucci, afirma que neste contexto existe a \u201cparadoxal utiliza\u00e7\u00e3o do l\u00e9xico dos direitos humanos para demonizar pr\u00e1ticas solid\u00e1rias que visam promover a dignidade dos sujeitos envolvidos&#8221;. Segundo ele, h\u00e1 casos em que ocorre o contr\u00e1rio, e o paradigma dos direitos \u00e9 aplicado de forma seletiva, unicamente a um determinado grupo de pessoas, como os nacionais.<\/p>\n<p>As regi\u00f5es com grande fluxo migrat\u00f3rio, como o norte do M\u00e9xico e regi\u00f5es do mar Mediterr\u00e2neo, concentram grande parte das atua\u00e7\u00f5es diretas de institui\u00e7\u00f5es que trabalham no \u00e2mbito das migra\u00e7\u00f5es e inspiram reflex\u00f5es sobre a defesa de direitos e humanitarismo devido \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia humanit\u00e1ria recorrentes. No artigo \u201cLas organizaciones de la sociedad civil en fronteras de alta migraci\u00f3n. Entre el humanitarismo y la defensa de derechos\u201d de Mar\u00eda Carrascosa e Joan Lacomba, presente no dossi\u00ea da REMHU n\u00ba 58, \u00e9 poss\u00edvel entender melhor essa quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O texto \u00e9 baseado nos resultados do trabalho de campo realizado na cidade fronteiri\u00e7a de Tijuana (M\u00e9xico) e nas cidades aut\u00f4nomas de Ceuta e Melilla (Espanha). A pesquisa mostra os n\u00edveis de desempenho das organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil em rela\u00e7\u00e3o aos migrantes em tr\u00e2nsito, deportados e refugiados, que atuam entre a ajuda humanit\u00e1ria e a defesa dos direitos (<em>advocacy<\/em>), embora as pol\u00edticas de controle de fluxo limitem cada vez mais a a\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es, especialmente aquelas com posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas mais cr\u00edticas.<\/p>\n<p>Dessa forma, o trabalho explora os processos de resili\u00eancia por meio dos quais essas organiza\u00e7\u00f5es tentam se adaptar ao contexto pol\u00edtico altamente mut\u00e1vel, enquanto a capacidade de influenci\u00e1-lo \u00e9 cada vez mais limitada. O texto pode ser lido na \u00edntegra <a href=\"http:\/\/remhu.csem.org.br\/index.php\/remhu\/article\/view\/1308\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">qui<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Cidades Santu\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m do dossi\u00ea, na se\u00e7\u00e3o \u201cartigos\u201d destaca-se o trabalho \u201cCidades-Santu\u00e1rio e o Direito \u00e0 cidade: repensando pertencimento a partir das cidades\u201d, do vice coordenador do Centro de Prote\u00e7\u00e3o a Refugiados e Imigrantes (CEPRI\/Funda\u00e7\u00e3o Casa de Rui Barbosa), Andr\u00e9 Zuzarte, que desdobra sua tese de doutorado sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a \u201ccrise do ref\u00fagio\u201d e a \u201ccrise das cidades\u201d. O autor argumenta que o espa\u00e7o urbano acarreta possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de formas alternativas de cidadania para os migrantes e refugiados(as) que, por vezes, desafiam os processos de exclus\u00e3o que lhes s\u00e3o impostos em n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p>O artigo deixa claro que os movimentos migrat\u00f3rios sempre fizeram parte da hist\u00f3ria das cidades, da antiguidade \u00e0 idade moderna. Pessoas migrantes estabeleceram ra\u00edzes no meio urbano em que, com frequ\u00eancia, se replicaram e aprofundaram as pol\u00edticas e pr\u00e1ticas estatais de exclus\u00e3o. Dessa maneira, a discrimina\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o de migrantes passa a ocorrer n\u00e3o somente nas fronteiras nacionais externas, mas tamb\u00e9m nas fronteiras internas &#8211; locais de trabalho, escolas, moradias<span style=\"text-decoration: line-through;\">.<\/span><\/p>\n<p>Zuzarte afirma que a assim chamada \u201ccrise dos refugiados\u201d de 2015, na \u00e1rea do Mediterr\u00e2neo, impulsionou o aumento n\u00e3o apenas do controle das fronteiras externas \u2013 visando reduzir os ingressos, mas tamb\u00e9m de fronteiras f\u00edsicas e simb\u00f3licas em espa\u00e7os internos e locais \u2013 visando, neste caso, gerar din\u00e2micas de fiscaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o no cotidiano das pessoas migrantes.\u00a0 Neste caso, as cidades traduzem as pol\u00edticas e medidas de controle e policiamento dos Estados em contexto urbano. Essas interven\u00e7\u00f5es se d\u00e3o no acesso a servi\u00e7os sociais locais b\u00e1sicos, como sa\u00fade, moradia e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda assim, o artigo defende que, ao mesmo tempo em que as cidades abrigam essas pr\u00e1ticas que segregam e excluem esses indiv\u00edduos da participa\u00e7\u00e3o e pertencimento plenos na comunidade, trazem tamb\u00e9m possibilidades disruptivas que apontam para a constru\u00e7\u00e3o de uma vida urbana mais aberta. Se baseando na teoria de Lefebvre (1968) em Le Droit \u00e0 Ville (Direito \u00e0 cidade), Zuzarte acredita que nesse contexto as pessoas podem se apropriar, participar e transformar os espa\u00e7os nos quais est\u00e3o inseridas, envolvendo a capacidade dos habitantes de controlarem os mecanismos de gest\u00e3o do espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as \u201ccidades-santu\u00e1rio\u201d v\u00e3o na contram\u00e3o do processo de criminaliza\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o, resistindo a pol\u00edticas nacionais excludentes e oferecendo prote\u00e7\u00e3o a pessoas refugiadas e migrantes com status irregular. Um exemplo de cidade que implementa a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 essa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 S\u00e3o Francisco, que introduziu pol\u00edticas municipais na d\u00e9cada de 1980 que a fizeram uma das primeiras \u201ccidades santu\u00e1rio\u201d nos Estados Unidos, aprovando regulamentos que proibiram o uso de fundos e recursos locais para a colabora\u00e7\u00e3o com pol\u00edticas securit\u00e1rias federais. Pol\u00edticas an\u00e1logas ocorrem em cidades da Europa e da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>O artigo de Andr\u00e9 Zuzarte, portanto, sinaliza a possibilidade concreta de estabelecer em n\u00edvel local din\u00e2micas de constru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano que desafiam as pol\u00edticas nacionais securit\u00e1rias e discriminat\u00f3rias. As cidades santu\u00e1rio \u2013 como sustenta o autor \u2013 \u00a0\u201cn\u00e3o representam apenas espa\u00e7os de resist\u00eancia, mas de materializa\u00e7\u00e3o de formas alternativas de pertencimento que se pautam n\u00e3o pela posse de um\u00a0<em>stato<\/em>\u00a0formal, mas pela presen\u00e7a no espa\u00e7o urbano \u2013 aproximando-se da no\u00e7\u00e3o lefebvriana de direito \u00e0 cidade\u201d.<\/p>\n<p>Nessa perspectiva, o espa\u00e7o urbano se torna tamb\u00e9m um lugar privilegiado de interven\u00e7\u00e3o por parte da pr\u00f3pria Sociedade Civil \u2013 tema do Dossi\u00ea da REMHU, n. 58 \u2013 chamada a incidir na constru\u00e7\u00e3o de novas formas de cidadania e na prote\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o dos direitos de todas as pessoas residentes, independentemente de sua nacionalidade.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/remhu.csem.org.br\/index.php\/remhu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Todos os textos publicados pela REMHU s\u00e3o de livre acesso, e podem ser acessados aqui.<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"featured_media":17790,"parent":0,"template":"","categories":[45],"class_list":["post-18059","csem_em_foco","type-csem_em_foco","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","category-45"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/csem_em_foco\/18059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/csem_em_foco"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/csem_em_foco"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17790"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.csem.org.br\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}