O número 56 da REMHU, Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana traz o dossiê “Migrantes Africanos na América Latina”, organizado pelas professoras Nanneke Winters e Franziska Reiffen, da Universidade de Mainz (Alemanha) em parceria com o CSEM

 

Os diversos artigos presentes no Dossiê realçam principalmente a dimensão subjetiva dos processos de inserção de pessoas migrantes africanas na América Latina. Ainda que condicionados por fatores estruturais – como as conjunturas políticas, as crises econômicas e os regimes migratórios –, esses migrantes, em geral, têm implementado com criatividade estratégias de inserção no espaço social latino-americano, desfrutando de ferramentas socioculturais disponíveis tanto na terra de origem quando naquela de chegada. Saberes aprendidos desde a infância, articulações com redes migratórias e familiares, apoios de entidades e ativistas dos direitos humanos são alguns exemplos das “ferramentas” utilizadas para promover a inserção desejada nesse continente.

A ênfase na inserção desejada visa ressaltar a heterogeneidade e singularidade dos projetos migratórios das pessoas migrantes africanas na América Latina. A temporalidade da estadia e o foco familiar, por exemplo, impactam radicalmente no tipo de inserção desejada, o que no dossiê da revista é chamado também de “hacer-lugar”: os “não-lugares” – na acepção de Marc Augé – anônimos, solitários e sem memória, com os quais os(as) migrantes africanos(as) se deparam na(s) terra(s) de chegada e trânsito, tendem a ser transformados, de alguma maneira, em lugares relacionais, familiares.

Este “hacer-lugar” é indispensável, tanto para o êxito do projeto migratório quanto para o bem-estar psicossocial dos sujeitos envolvidos. Nesta ótica, o Dossiê da REMHU apresenta e reflete sobre numerosas estratégias de inserção de mulheres e homens oriundos da África que na América Latina inevitavelmente transformam o lugar físico e social em que passam e residem, estabelecendo relações com autóctones, com as diásporas e, por vezes, com migrantes oriundos de outros países, inclusive entrelaçando contatos transnacionais com seus familiares.

Essas estratégias de inserção, geralmente contextuais e provisórias, evidenciam, por um lado, certa forma de protagonismo – agency – por parte das pessoas migrantes e, por outro, desafiam a formulação e implementação de políticas públicas de integração, geralmente pouco sensíveis às reais necessidades desses migrantes, sobretudo quando são religiosamente diferentes em comparação com as tradições nacionais.

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Roberto Marinucci

Editor Chefe da Revista REMHU