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Mexicana vive há mais de um ano em igreja nos EUA para evitar deportação

Durante muito tempo, a primeira coisa que Rosa Robles fazia ao chegar em casa era se benzer.Agradecia a Deus por mais um dia sem chamar a atenção das autoridades.

Juan Paullier

Quando chegava a seu trabalho de limpeza de casas, ligava para o marido Gerardo e ambos agradeciam a Deus.

Robles, de 42 anos, vive ilegalmente nos Estados Unidos há 16 anos. Passou a vida sem grandes sobressaltos em Tucson, no Arizona, até cometer uma infração leve de trânsito na tarde de 2 de setembro de 2010.

Sua vida virou de cabeça para baixo. Naquele hora ela pensou que nunca mais veria seus filhos. E aquilo que sob outras circunstâncias se resolveria com uma multa acabou com uma ligação à polícia de fronteira e sua prisão por 53 dias.

Meses antes, o Estado do Arizona havia aprovado a controversa lei SB1070, uma das mais duras contra os imigrantes ilegais nos EUA e terror de milhões de pessoas no país.

Ela foi liberada sob fiança e as autoridades iniciaram procedimentos para expulsá-la do país, até que em julho de 2014 veio a confirmação de que seria deportada.

Robles enfrentava a possibilidade de deixar para trás o marido e os filhos Gerardo (12), e José Emiliano (9).

Para evitar ser deportada para o México e após uma sugestão de seus advogados, ela se trancou numa igreja em Tucson.

Pensou que passaria alguns dias por lá, mas completou nesta semana 400 dias refugiada no templo presbiteriano Southside.

Movimento santuário

  • A igreja presbiteriana Southside de Tucson foi uma das primeiras a receber imigrantes, na década de 1980.
  • Desde então, surgiu o chamado Movimento Santuário, para dar abrigo a milhares de imigrantes da América Central que fugiam de conflitos em seus países e lutavam contra a deportação dos EUA.

O caso de Robles não é o único. Estima-se que ao menos outras quatro pessoas estejam em condições parecidas, ainda que não há tanto tempo, em igrejas de outras regiões dos EUA.

"Meu Deus, o que irá acontecer se eu tiver que passar outro ano aqui? É muito duro, muito difícil. Mas graças a Deus tenho a amor das pessoas. É como uma prisão - mesmo com todo o apoio, estar presa faz valorizar muito (a liberdade)", disse Robles em uma conversa telefônica com a BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Ela passa o dia em orações e ajudando nas tarefas da igreja, seja na limpeza ou cozinhando para pessoas carentes.

Robles conta pedir a Deus que continue lhe dando fé, esperança e força para continuar, e ainda que não possa ter uma refeição em família, prepara diariamente o jantar, que o marido busca depois de trabalhar.

Da tarde de sexta-feira até domingo, marido e filhos visitam o pequeno quarto que ela ocupa na igreja.

Eles montam quebra-cabeças e conversam sobre os jogos de beisebol dos filhos.

"Eles querem que a mãe esteja por perto. É duro quando me dizem: 'Mãe, estava jogando e escutava seus gritos (de apoio). Quero que vá aos jogos", afirma Robles.

As despedidas são cada vez mais difíceis, e cada domingo ela tem que passar um tempo consolando o filho mais jovem.

Apoio da comunidade

O caso causou indignação entre parte da comunidade local, e motivou manifestações de repúdio à situação da imigrante mexicana.

Como parte da campanha "We Stand With Rosa" (Estamos com Rosa), foram colocados 10 mil cartazes em casas, lojas e igrejas da cidade, e criadas contas no Twitter (@WeStandWithRosa) e no Facebook.

Na igreja, aceitaram acolhê-la - como fizeram com outras pessoas em situações parecidas - porque consideram "importante" estar com famílias como a de Robles.

"Há muitas famílias como a sua que estão sendo despedaçadas cada dia por nosso sistema falido de imigração", afirmou a pastora Alison Harringdon.

"Como uma comunidade de fé, nos sentimos obrigados a estar junto aos que sofrem e a levantar a voz contra as leis que violam os valores bíblicos de acolher o estrangeiro e amar o próximo."

No limbo

Após mais de um ano na igreja, a situação de Robles continua em uma espécie de limbo.

As autoridades não entram no templo para prendê-la, mas ela corre o risco de ser deportada se sair.

"O caso de Rosa está demorando tanto tempo para ser resolvido por uma falha ou falta de vontade do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês)", disse à BBC Mundo Sarah Launius, uma das advogadas de Robles.

O serviço de imigração e aduanas dos EUA, órgão vinculado ao DHS, funciona desde 2011 sob uma diretriz que procura evitar a aplicação de certas normas em determinadas circunstâncias.

"As ações de execução da lei não ocorrem em locais sensíveis como escolas e igrejas, salvo algumas exceções", afirmou Jennifer Elzea, porta-voz do serviço de imigração.

As exceções incluem temas de segurança nacional ou terrorismo, risco de morte, violência ou dano físico a uma pessoa ou propriedade, prisão ou perseguição de um criminoso perigoso ou alguém que represente risco à sociedade, ou risco iminente de destruição de provas em um processo criminal.

A defesa de Robles afirma que o governo já poderia ter resolvido o caso.

Uma diretriz do serviço de imigração estabelece que casos de pessoas sem antecedentes criminais e com laços "significativos" familiares e na comunidade podem ser fechados na esfera administrativa, cita a advogada Launius.

"Rosa se enquadra no caso de interrupção da deportação, mas o governo não fez isso. É difícil dizer com certeza a razão, mas parece ter relação com o debate político sobre a imigração e as estratégias eleitorais dos principais partidos nos EUA", completa a defensora.

Se pudesse falar com o presidente Barack Obama sobre seu caso, afirma Robles, diria apenas que ele está perdendo uma oportunidade.

"Ele é pai de duas meninas lindas e sinto que ele daria tudo por elas. Ao nos encontrarmos, será que não pensaria que estamos lutando por nossos filhos da mesma maneira?", questiona-se Robles.

"Essa é uma luta por meus filhos. Diria a ele que pensasse em suas filhas e por um pequeno momento em nós, que nos desse essa oportunidade de provar que somos pessoas que vieram batalhar nesse país."

Robles deixou uma carreira de contadora pública na cidade natal de Hermosillo, no Estado de Sonora, para buscar melhores oportunidades do outro lado da fronteira, porque estava conseguindo apenas o mínimo para sobreviver.

"Estamos aqui por nossos filhos, para dar a eles uma oportunidade de avançar. Ainda que eu limpe casas e meu marido seja jardineiro, temos uma vida melhor aqui do que no México."

Fonte: BBC Mundo - 16.09.2015

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