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Europeus repudiam imigrantes muçulmanos, mas precisam deles para manter crescimento

Atualmente, acredita-se que 15 milhões de muçulmanos vivam só nos países da União Europeia.

Do R7*

O alto número de britânicos de origem árabe que se uniu ao grupo radical Estado Islâmico na luta pela jihad continua preocupando líderes ocidentais. Estima-se que 12 mil combatentes do grupo sejam estrangeiros, e de acordo com as forças de segurança do Reino Unido, pelo menos 500 são britânicos.

Cidadãos europeus de origem muçulmana são — considerando apenas os países membros da União Europeia —, mais de 15 milhões de pessoas.

Especialistas entrevistados pelo R7 comentam que as dificuldades enfrentadas pelos imigrantes do mundo islâmico em países europeus mostram, principalmente, a resistência do velho mundo em aceitar estrangeiros em seu território.

De acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto Pew, Rússia, Alemanha e França são os principais destinos da imigração islâmica. Para a professora de história da Unifesp, Samira Osman, o fluxo de imigração está relacionado ao histórico de colonização de determinado país. “Quando se fala de imigração de muçulmanos na França, a gente se refere basicamente aos de origem marroquina e argelina, pelo fato de terem sido colônias francesas”, explica.

— Isso é uma facilidade, por exemplo, na questão da própria língua. Como ex-colônias, ainda que o árabe seja a língua oficial, o francês é uma língua falada e até mesmo ensinada nas escolas.

Entretanto, apesar do pensamento de que a vida em outro país pode ser mais fácil, a imigração acaba transformando expectativas e tirando a identidade de cidadãos. Para Samira, os imigrantes enfrentam resistência de governantes e civis, e, além disso, passam a não pertencer a nenhum país, ou a serem estrangeiro em qualquer lugar.

Os muçulmanos, em geral, são impulsionados a imigrar, principalmente por fatores econômicos e políticos. Eles buscam cidades sem conflitos étnicos ou políticos, e sonham com a possibilidade de conseguir um emprego, o que de fato, na maioria das vezes, acontece. Segundo Samira, boa parte dos imigrantes ocupa o subemprego, que é rejeitado pela população local. “Ao mesmo tempo em que a Europa repudia a imigração, são os imigrantes que ocupam as atividades econômicas que os nacionais não querem”, diz.

Porém, de acordo com Samira, a adaptação dos muçulmanos estrangeiros em território europeu é bastante difícil, principalmente por causa das diferenças culturais, já que a xenofobia [aversão a estrangeiros] é constante na Europa. “Quando há crise econômica, os estrangeiros são culpados por elas. O imigrante geralmente é apontado como causa do problema, ou porque aumenta a população ou porque faz uso de recursos públicos, como saúde e educação, ou porque tiram o emprego dos europeus”, diz. “Tem um série de justificativas”.

Já o pesquisador do Instituto Konrad Adenauer em estudos europeus pela Fundação Getúlio Vargas, Bruno Theodoro Luciano, acredita que a xenofobia tem crescido na Europa justamente por causa da crise, principalmente por causa da disputa de empregos.

Ele também recorda que alguns países europeus chegaram a impor medidas para a contenção de elementos de origem religiosa, como o caso da proibição de burcas na França. “Essas medidas, aplaudidas por grupos mais nacionalistas, geram reações intensas dos imigrantes na Europa”. Para ele, isso torna ainda mais evidente a discriminação sofrida pelos islâmicos na região.

Normalmente, os imigrantes são obrigados a conviverem entre si em redutos periféricos, como guetos ou bairros mais pobres. Dessa forma, a circulação, a convivência e o comércio são restritos aos cidadãos de mesma nacionalidade, confinando imigrantes em seu próprio mundo. “Isso faz com que alguém que more na França por décadas jamais fale francês, porque não precisa”, comenta. O Instituto Pew estima, por exemplo, que 3,5 milhões de muçulmanos vivam atualmente na França.

Bruno, porém, diz que a Europa vem passando por um problema demográfico significativo, com o envelhecimento da população e baixas taxas de natalidade.

Samira também comenta que os muçulmanos são comumente associados ao terrorismo, principalmente depois dos atentados de 11 de setembro, contra os Estados Unidos, e que isso prejudica ainda mais a adaptação deles em território estrangeiro.

— Se há uma xenofobia enrustida, disfarçada, quando esses fatos [ações terroristas] acontecem, ela só aumenta.

“A diversidade de identidade tem se tornado um argumento fundamental para grupos nacionalistas e xenófobos, os quais ganharam muita força política nas eleições em maio deste ano”, comenta Bruno. Segundo ele, em alguns casos, há radicais que exigem maiores restrições à imigração, inclusive apoiando o uso de violência contra imigrantes.

Em alguns países, como o Brasil e os Estados Unidos, a lei “jus soli”, ou direito de solo, garante que crianças nascidas no país, mesmo que filhos de pais estrangeiros, sejam reconhecidas como cidadãs nacionais. Na Europa, porém, a lei “jus sanguinis”, ou o direito de sangue, é a que determina a cidadania. Apenas filhos de cidadãos locais são reconhecidos como civis também.

Samira explica que o estrangeiro na Europa tem o direito de acesso à saúde, à educação, mas que a nacionalidade provavelmente nunca vai ter. Bruno acredita que essas restrições colaboram para a marginalização dos imigrantes na sociedade europeia.

* Bruna Vichi, estagiária do R7

Fonte: R7 - 20.09.2014

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